Paragons

O Incidente de Evanston
Informativo

Em 8 de Novembro de 2012, mais de um ano após o Limiar ter redefinido o “impossível” para o mundo, um paranormal não-identificado apareceu nos arredores de Evaston, Wyoming nos Estados Unidos da América e, sem querer, mudou o curso da história. Viajantes para a costa leste pela Interestadual 80 até Evaston vindos de Utah notaram uma estranha figura parada no meio da rodovia, indo para Evanston vindo de um local desconhecido. Descrito pelas testemunhas como “selvagem e possivelmente alcoolizado”, a estranha figura não parecia se importar com o perigo que ele passava no tráfego do fim da noite, despertando a atenção da patrulha rodoviária. Não foi até as autoridades locais tentarem deter o indivíduo para sua própria proteção que a situação ficou perigosa. Confuso e frustrado, o paranormal se lançou contra os oficiais, matando-os instantaneamente. Com a escalada da situação, o paranormal assustado tentou escapar apenas para ser confrontado novamente pela polícia de Evanston, resultando num confronto que destruiu vários quarteirões de propriedade comercial. Em questão de horas, as unidades da Guarda Nacional chegaram em Evanston tentando conter a situação. Incapazes de causar o menor ferimento no super-humano agora furioso que os confrontava, a situação saiu do controle. O conflito causou danos em propriedades de milhões de dólares e custou as vidas de centenas de pessoas. Apesar do paranormal ter escapado e nunca ter sido realmente identificado, a devastação foi chocante… particularmente para os milhões de telespectadores que viram os eventos se desdobrarem ao vivo nos canais de notícias ao redor do mundo.

O “Incidente de Evanston” incitou pânico ao redor do globo. Eventos paranormais tinham sido mostrados pela mídia antes, mas esta foi a primeira vez que o perigo proposto por paranormais tinha se ficado extremamente claro para as massas. Enquanto oficiais do governo em cada grande país estava ciente por algum tempo de paranormais com agendas criminosas e terroristas eram uma ameaça real e muito perigosa para segurança nacional e internacional, o Incidente de Evanston moveu estas preocupações do reino do possível para o real. Pior de tudo, tais perigos foram realizados em completa visão do público. Temente de que monstros paranormais morassem em cada esquina, prontos para explodir sobre os cidadãos insuspeitos a qualquer momento, a população mundial exigiu uma resposta de sua liderança. Dentro de dias depois do evento de Evanston, demonstrações anti-paranomais foram organizadas em metrópoles ao redor do mundo, muitas das quais se transformaram em revoltas. Em vários países, gangues de “caçadores de bruxas” de estilo próprio atacaram e, em muitas circunstâncias, executaram em público suspeitos paranormais num esforço de reclamar o mundo para homens “normais”. O caos cresce e ameaça consumir a segurança e a paz internacional.

Para analisar e conter ameaças paranormais desta magnitude, o governo acelerou os planos de concluir a sua agência especializada neste tipo de crime, a PRAAgência Reguladora Paranormal. As Nações Unidas, logo em seguida, criariam a PAX – Ação Executiva Paranormal – para analisar eventos paranormais e coordenar as agências internacionais responsáveis nestes assuntos.

View
Julgamento Macabro
A Lâmina do Ceifador #1

Uma risada baixinha acordava Marcus. Ele estava de olhos abertos, mas não conseguia enxergar nada. Trevas, totais e inescapáveis, sentavam sobre ele.

Tudo começava a girar em torno de sua cabeça e ele se lembrava dos detalhes daquele dia macabro: sua esposa morta por uma razão nefasta; seu filho, destruído porque tinha sido incapaz de defendê-lo; e sua filha, desparecida, esperando pela morte.

E a risada continuava.

- Ele nos matou, Marcus! – a voz falava, ainda rindo de forma sinistra, mesmo com o assunto sendo tão sério.

- Ceifador, eu vou acabar com você!

Marcus tentou levantar para dar cabo de seu demônio interior, mas não conseguiu. Suas forças haviam esvaído completamente. Ainda cego, ele apenas esperava até que algo acontecesse, enquanto escutava as irritantes risadas do Ceifador.

- Pelo menos ele não pegou a baixinha… essa pode ser minha ainda!

O coração de Marcus acelerou. – Eu vou acabar com você! – e sem forças, desistiu novamente. – Deixe-me sair daqui que calarei sua boca para sempre!

O Ceifador continuou rindo até que, de súbito, parou. Marcus não sabia o que tinha feito o Ceifador para de repente, mas era algo sério: ambos já tinham enfrentado criaturas sobrenaturais aterrorizantes, mas nunca que o Ceifador recuou de uma briga.

- Olá para ambos.

Uma voz gutural, cruel e maligna, além de um bafo de enxofre e carne pútrida, exalavam no ambiente. Aos poucos, uma luz vermelha foi surgindo e, em poucos minutos, Marcus podia enxergar o Ceifador ao seu lado, ajoelhado, preso num círculo místico. Com suas forças recuperadas o suficiente para se levantar, ele percebeu que também estava preso num círculo próprio. Procurando no ambiente, ele se via a beira de um abismo infinito, e atrás dele uma criatura que parecia ter saído de seus piores pesadelos.

- Quem é você? – falou Marcus, sem temer a abominável criatura.

- Eu sou o Espírito da Vingança. – disse a criatura. – Sou um anjo caído, mandado pelo próprio Portador da Luz a julgá-los nesse momento.

Marcus então finalmente percebeu onde estava. O céu rubro, nuvens escuras e trovoadas constantes, ele sentiu que não precisava mais respirar. Ele não sentia fome, sede, frio ou calor. Em outras palavras, ele estava no Inferno.

Literalmente.

- Ô, mané! – disse o Ceifador, chamando Marcus. – Vai deixar esse carinha aí acabar com a gente? Mas eu ainda nem me diverti!

- Silêncio! – falou o Espírito da Vingança, sua voz ecoando. – Vocês serão julgados agora, perante as suas crenças e religiões. Ele dará o julgamento final.

Antes que Marcus e o Ceifador pudessem perguntar quem seria Ele, uma sombra enorme passou pelos dois. Um calafrio percorreu sua espinha e, apesar de serem destemidos, eles sentiram que o perigo era maior do que eles podiam imaginar. Aos poucos a sombra foi tomando forma e, sem reação, eles viram o Necropolitano tomar forma novamente.

- Nossa… o Inferno tá com falta de capetas mesmo! Olha só quem apareceu! – debochou o Ceifador, antes que os dois fossem esmagados por mãos de trevas e sofressem uma dor imensa.

- Calado, você vai nos matar! – gritou Marcus e o Ceifador parou, pensou e calou. O Necropolitano, então, abriu a boca para falar, mas nenhuma palavra saiu dela. Entretanto, o Espírito da Vingança aparentou ter entendido.

- Quais as circunstâncias de sua maldição, Marcus Lourenço? – perguntou o Espírito.

Marcus parou, pensou, mas não sabia a resposta. Tudo o que ele realmente sabia era que sua família tinha sido amaldiçoada há muito tempo atrás devido a um pacto feito para salvar a vida de um dos filhos da família Lourenço. E que a linhagem de sua família continuou forte e firme, mesmo sob grandes maldições. O plano do Senhor das Trevas era grande, porém demorado, e ele tinha uma grande paciência. Mas a morte da última família Lourenço e seus descendentes pode tê-lo deixado irritado.

- Eu não sei… não exatamente. – respondeu.

Antes que o Ceifador pudesse debochar, o Espírito da Vingança o espremeu mais uma vez, arrancando gritos de dor e ódio do demônio. – Calado! – ele olhou para Marcus. – Então não sabe de sua origem, não é? – falou o Espírito, olhando mais uma vez para o Necropolitano. Então, após escutar que Marcus não podia ouvir, o Espírito segurou com sua imensa mão a cabeça de Marcus.

- Pois veja muito bem o seu propósito… e acredite, você terá que cumpri-lo, mais cedo ou mais tarde.


Marcus começou a alucinar, a pedir que o demônio parasse. Mas era impossível, as imagens perturbadoras estavam gravadas em seu cérebro. Tamanha era a informação que ele só conseguia lembrar de pedaços.

Ele lembrava de uma família espanhola triste. De uma esposa doente, que não conseguia gerar filhos, apenas filhas. E de um pacto feito com uma bruxa do mar, a qual sua melhor amiga havia indicado.

- Acredite, Julia, ela já fez milagres comigo! Como acha que eu consigo ter essa aparência mesmo tendo quarenta anos?

Catarina D’Ambrosio não parecia ter mais do que vinte anos, mas ela realmente era mais velha que a própria Julia Lourenço. Julia, com a barriga dilatada devido a gravidez, sofria de dores e tormentos em perder mais um filho por aborto. Ambas estavam paradas no porto de Barcelona, onde esperavam um caolho trazer a bruxa para a tenda.

Com um sorriso cruel, o caolho se aproximou das duas, assustando Julia. Catarina apenas ficou firme enquanto ele abriu a tenda para que as duas entrassem. Julia se impressionou com o autocontrole de sua amiga, mas ela entendia que Catarina tinha passado por isso antes.

No interior da tenda, um cheiro de óleo, peixe e incenso infestavam o ar. Moscas pairavam mortas ao chão, o que preocupou Julia, mas Catarina pegou-a pelo braço e a conduziu até a bruxa.

A bruxa não parecia em nada com o que os contos de fadas que Julia escutava: uma mulher alta, bonita, de olhos verdes brilhantes e um sorriso perfeito. Julia sentiu-se até um pouco envergonhada em estar entre duas elegantes mulheres e ela, doente e mal vestida, estragando a imagem.

- Sente-se Julia. – a voz da bruxa era doce e suave, quase sonolenta. – Estava esperando por você.

Julia se assustou um pouco. – Como sabe…?

- Seu nome? – a bruxa a interrompeu. – Eu sei de muitas coisas, Julia Lourenço. – ela falou e Julia podia jurar que o incenso estava formando imagens no ar. – Inclusive de seu problema com seu marido.

- Sim. – disse Julia. – Eu não consigo dar-lhe um herdeiro homem, o que o deixa bastante frustrado. – Catarina segurou a mão da amiga, consolando-a.

A bruxa sorriu. – Eu acredito que você que deve estar frustrada, Julia. – ela mexeu as mãos e um vulto passou ao lado de Julia, que o seguiu com os olhos, mas o perdeu de vista. – Quantas vezes ele sai de casa para ter relações com outras mulheres? Deve ser uma agonia profunda ser incapaz de satisfazer os desejos de seu homem, mas isso eu entendo. – ela parou e, quando calou, olhou firme para Julia e o som na cessou. – Mas isso não é desculpa para suas ações.

- Eu sei… – Julia começou a chorar, enquanto Catarina a tentava consolá-la. – É muito difícil saber que é dividida por outra mulher… e que seu corpo a trai. Eu gostaria muito de deixá-lo feliz. Talvez assim ele volte para mim.

A bruxa continuou olhando sério para Julia. – E isso é um problema? Nós mulheres nascemos do pecado e devemos sofrer pelo resto de nossas vidas terrenas? Você acredita mesmo nisso. – A bruxa olhou para Catarina, que fez com não como se a pergunta fosse direcionada a ela. – Nós mulheres devemos nos unir. E nessa sociedade que somos oprimidas, nós devemos usar a única arma que temos: nossa magia!

Um efeito luminoso espantou Julia, enquanto Catarina e a bruxa riam.

- Meu Deus! – Julia fez o sinal da cruz. – Isso é… blasfêmia!

- Não. – disse Catarina, agora olhando diretamente nos olhos de Julia. – Isso é poder, minha querida amiga! Vamos dar aos homens desse mundo algo que eles nunca esperarão.

Assustada, Julia pensou em desistir. Mas quando sentiu a cólica novamente, ela pensou duas vezes. Mordendo o lábio e falando baixinho, ela pediu gentilmente para que a bruxa concluísse seu serviço.

- O quê? – disse a bruxa. – Desculpe, minha cara, eu não ouvi direito.

- Eu quero que você salve meu filho que carrego no ventre. E quero que ele cresça saudável e feliz, e que nossa família seja feliz para sempre!

A bruxa parou por um momento e se levantou. Em um piscar de olhos, suas retinas brilhavam como chamas negras. Catarina tinha entendido a epifania da bruxa e levou Julia até a sala de rituais.

Ao contrário do que esperava, mais uma vez Julia encontrou um ambiente totalmente diferente: limpo, organizado, com todos os instrumentos de magia guardados em um pequeno armário de costas para a tenda. A mesa era fria, porém confortável, e Julia se sentiu bem quando soube que tudo acabaria, finalmente.

A bruxa preparou seu ritual: runas místicas foram escritas no ventre de Julia. A tinta era quente, mesmo sem que ela tivesse esquentado no fogo. Julia começou a se preocupar quando os olhos da bruxa começaram a brilhar como fogo e quando percebeu que Catarina tinha preso ela a mesa.

A tinta rúnica começou a queimar no ventre de Julia, que começou a sentir fortes dores. Ela já havia sentido isso antes, estava prestes a abortar. Mas neste momento, uma criatura das trevas, o Espírito da Vingança, tinha se formado perante a ela. Com movimentos lentos e precisos, ele iniciou a extração da criança que, antes de Julia desmaiar, parecia deformada e totalmente inumana.

Ao recuperar a consciência, Julia percebeu um bebê em seus braços. Seu filho finalmente tinha nascido, saudável, apesar de prematuro. Ela estava muito feliz e ao seu lado estava Catarina, que limpava o suor de seu rosto.

- Catarina. É um milagre! Ele nasceu, tão belo!

Catarina apenas sorria, enquanto a bruxa iniciava um cântico que tirou completamente a alegria do coração de Julia.

Do fogo e das chamas
Das trevas e da noite
O Mal renascerá
Com lâmina e açoite

A criança viverá
Gentil e cortês
Mas logo cederá
Ao mal sua vez

No trigésimo verão
O Ceifador surgirá
E a cada nova geração
Ele há de voltar


- Então… é isso que aconteceu? Eu sou um produto de meus antepassados?

Finalmente Marcus tinha voltado a si. O Ceifador estava rindo ao seu lado, debochando de sua ignorância.

- E eu pensando que você sabia! – ele ficou sério. – Mas pelo visto você é mais estúpido que eu imaginava!

O Espírito da Vingança estava parado, esperando a resposta do Necropolitano. Este estava sentado em um trono de chamas sombrias. Após alguns momentos, o Espírito da Vingança olhou para os dois.

- Sua função na Terra não acabou, Ceifador. Você tem uma missão a fazer para seu mestre. Marcus, você também fez um pacto com um homem chamado Silas, e deve cumpri-lo. Os dois têm propósitos no mundo dos vivos, portando ele decidiu poupá-los da Queda Infinita.

- Não! – gritou Marcus, antes que o Espírito pudesse terminar. – Ele não pode voltar! Ele vai matar a minha filha!

O Necropolitano finalmente se dirigiu aos dois. Ele moveu a boca, mas mesmo assim os sons saíram diretamente para seus cérebros. – Os dois não podem coexistir separados… uni-vos eu irei!

Com um poder profano, os corpos de Marcus e do Ceifador se uniram de forma que os dois voltaram a compartilhar o mesmo corpo. Mas havia algo de errado, algo de… diferente.

- O que você fez? – disse os dois ao mesmo tempo, suas vozes se misturando em dois tons de ódio e desespero.

- Agora os dois têm funções diferenciadas. – falou o Espírito. – Marcus será a voz da mente, o comandante. Entretanto, quando precisar usar seus poderes… o Ceifador tomará a frente.

- Não! – gritou a consciência de Marcus. – Ele não pode ser controlado!

- Aprenda logo antes que acabem os Lourenços do mundo. – disse o Necropolitano, apenas movimentando levemente sua mandíbula. – Eu lhes concedi uma segunda chance, não as desperdicem!

Marcus sabia que o Ceifador não estava de acordo com isto também. Ele gostava de aparecer quando Marcus se irritava, porém agora apenas quando Marcus quisesse ele poderia sair. Entretanto, Marcus não gostava da incapacidade de usar os poderes com sua consciência. Isso estava errado, absolutamente errado.

- Mais uma coisa. – disse o Espírito da Vingança. – Nada é de graça, tudo tem seu preço. Para retornar a vida, vocês foram convocados por um conjurador poderoso. Ele que lhes concedeu o direito de um julgamento. Ele que é servo dele, e que agora comanda os dois. Ele é a vontade, a mão dele na Terra. O pior Pesadelo que poderiam ter.

O Ceifador sabia que isso não iria nada bem…

View
Encontro de Caçadores
Mistérios das Sombras #1

- Então, é assim que começa.

O sonho. Mais uma vez o sonho que perseguia Christopher por quase uma semana. Lá estava ele, preso a uma cadeira, incapaz de se mover por alguma razão obscura. Drogas talvez? Ele não sabia. Mas havia uma coisa nítida em seu sonho.

Ele tinha de fazer uma escolha.

- Ele acha que conhece a dor?

Seu ombro estava perfurado por algo afiado, porém desconhecido. A voz masculina vinha da sala de armazém escura, onde estava. A sua frente havia nove pessoas, amarradas, inclusive uma linda mulher de vestido rasgado. Ela estava bastante ferida e, assim como Chris, estava com o ombro perfurado. Mas agora ele podia ver que não era algo de metal, madeira ou outro material.

Apenas trevas ocupavam o lugar do ferimento.

- Escolha! Um deles vive, os outros oito morrem!

Buscando falar, a voz do Caçador não conseguia penetrar a escuridão. Antes que ele pudesse entender o que acontecia, tudo ficou escuro, e no fundo de sua mente, um som familiar estava se repetindo…


Cidade de Nova York, 13/01/2012, 11:35

- Acorda, dorminhoco!

Um flash de luz apareceu perante os olhos de Chris, atordoando-o por um segundo. Com sua visão acostumada com a claridade ele percebeu sua irmã Kate abrindo a casa inteira e colocando uma música alta no som que Chris recebeu de presente de Natal.

- Nossa. – falou Kate, com tom de nojo. – O que diabos você faz para ser tão porco?

- Trabalho. – disse Chris, com a boca seca e sentindo fortes dores. O dia anterior não tinha sido um dos melhores: a Vanguarda enviou Chris e o Viajante checarem um esquema de tráfico de armas na Flórida. E uns membros da santeria local não ficaram felizes. E eles eram paranormais.

- Você está dizendo que seu trabalho o ocupa tanto que não pode nem mais receber uma visita da sua irmã? – Kate se aproximou para dar um abraço em Chris, mas ao sentir seu cheiro horrível, ela fez uma careta e se afastou. – Bem… – sorriu para disfarçar. – É melhor você se arrumar!

Chris sentou na cama, massageou as têmporas tentando encontrar um ponto entre as inúmeras dores que não fosse tão forte, depois suspirou. – Por que você está aqui, Kate?

Kate fechou a cara, como se alguém tivesse falado um palavrão. – E uma irmã não pode visitar um irmão de vez em quando? Que tipo de família nós somos?

Chris sabia que Kate estava atrás de alguma coisa. Normalmente Jessica fazia visitas todo fim de mês quando voltada de Detroit. A transferência para lá estava enchendo sua vida e principalmente depois que seu escritório começou a trabalhar abertamente com Nightstalker. Mas quanto a Kate, o assunto era diferente: após tornar-se uma modelo internacional, ela começou a visitar menos e menos seus irmãos e sempre que aparecia era para pedir algo.

Chris tentou ao máximo esboçar um sorriso. – Tudo bem, eu admito que estou um pouco surpreso, mas você não me visita, bem, desde que foi sequestrada ano passado! – disse Chris, em tom sarcástico. – E mesmo assim, você “aproveitou” a visita para me perguntar sobre algumas firmas de segurança para contratar guarda-costas!

Kate sentou na mesa de escrivaninha de Chris, que por um momento temeu que fosse ceder por tão acabada que estava. – Olha, eu sei que eu não sou a irmã mais presente. – e Chris notou que ela estava falando sério. – Nem mesmo sou a melhor irmã do mundo, isso é cargo da Jess. – ela falou sem olhar diretamente nos olhos do irmão. – Mas eu me preocupo com você, sério. Não sei porque fica nesse empreguinho…

Neste momento, Kate escutou o chuveiro ligar e seu nível de raiva subiu ao máximo. Dentro da ducha, Chris ouvia tudo com seus poderes paranormais, mas ria por dentro da raiva que Kate tinha. Ela odiava ser ignorada.

Ao terminar o banho, Kate olhava com uma cara de quem mataria alguém se tivesse uma arma na mão e Chris, mais refrescado, saiu sorrindo para a irmã. – O que dizia mesmo?

- Irmãozinho… – ela puxou a orelha de Chris, forçando-o a sentar. – Não me ignore, eu estava me abrindo para você aqui e você saiu no momento… ah, esquece!

- Ai! – disse Chris, segurando a orelha perfurada por unhas de modelo. – Pelo menos você não perdeu suas unhas poderosas!

- A verdadeira razão de eu vir, querido irmão, – interrompeu Kate – é que eu quero recompensá-lo por sua bondade. Como a irmã rica da família…

- Nem tanto! – interrompeu Chris.

- …eu já presenteei meus sobrinhos e Jess corretamente! – ela chutou a perna de Chris, que esquivou facilmente. – Então faltou você! Sei que meu som não foi grande coisa, por isso queria passar aqui para lhe intimar.

- Intimar? – Chris não gostava para onde isso levava. – Por quê?

- Parabéns irmão! – falou Kate, tirando duas passagens da bolsa. – Nós vamos para a Europa!


Paris, 14/01/2012, 13:14

- Eu sinceramente não acredito que fez isso!

Pelo telefone, dava para escutar a frustração de Vanessa Ashe, patrocinadora, bilionária, inventora e cadeirante mais querida da Vanguarda, claramente irritada com a partida de Shadow Hunter dos Estados Unidos.

- Pois é! Mas eu não tive escolha! – disse Chris, tentando disfarçar sua incrível vontade de rir. – Minha irmã, de alguma forma, descobriu toda a minha agenda, então eu não tinha escapatória. Eu não podia chegar e dizer: ‘Maninha, tenho uns serviços para fazer na Vanguarda, se importa?’.

Vanessa bufou do outro lado da linha. – Olhe, eu vou dar um desconto porque você passou por muita coisa. Nós… – ela parou e Chris soube que ela se referia a morte de Brandon – passamos por muita coisa. Mas quando fizer isso, avise! A Equipe Zero está desfalcada e eu estou pedindo transferência para a Equipe Alfa.

- Soube que eles estão fazendo um trabalho incrível aqui na Europa.

- Pois é. – disse Vanessa. – Fazia anos que Prophet estava reunindo e treinando eles. Mas quando as coisas esquentaram ele sabia que só vocês podiam impedir o fim do mundo. – ela falou em tom mais alegre. – Portanto, não seja tão duro consigo mesmo! A Equipe Zero é fenomenal.

- Ah, isso tudo só porque somos americanos! – brincou Chris.

- Não. – Vanessa retrucou. – Porque vocês são heróis.

Ao desligar o telefone, Chris se sentiu mais tranquilo. “Heróis”, pensou, “é, nós somos heróis agora, podemos fazer a diferença”. Mas a lembrança dos sonhos logo apagaram a felicidade de sua mente. E quando sua irmã puxou seu braço com a força equiparada de Hércules, Chris escapou de seus devaneios.

- O que foi? – falou, alarmado.

- Acorda dorminhoco! – ela apontou. – Estamos aqui.

O Paris Fashion Week estava sendo montado em pleno Carrousel du Louvre, um shopping subterrâneo da cidade da luz. O nome vem do Louvre e da Place du Carrousel, uma praça próxima bastante famosa por suas bebidas. Infelizmente isso teria de esperar, já que Kate iria colocar o nome dos Collins nos holofotes ao desfilar como modelo.

- Nós não vamos ver suas amigas supermodelos agora, vamos?

Kate riu e deu uns tapinhas nas costas e ele baixou a cabeça, derrotado. – Estas festas são apenas para os convidados.

Depois disso, Chris notou que ela tinha dois convites na mão e abriu um sorriso.

- Pois é, mano! – ela piscou e entregou um deles para ele. – É bom ter seus contatos! Mas primeiro devemos mudar esse visual para algo mais… moderno!


Carrousel du Louvre, 15/01/2012, 20:03

Chris não sabia que abraçava ou estrangulava sua irmã. Tudo bem que ela o trouxe para um dos locais mais cheirosos e com gente bonita do mundo. Mas o terno que ela comprou, um azul escuro, estava tão apertado que ele podia sentir seu fôlego caindo aos poucos. “Demora um pouco pra acostumar”, ela disse.

Após alguns minutos rodando pelo local, Chris pegou um champanhe e engoliu. Era delicioso, mas o que o fez abrir a boca foi ela: Alexandra Norpov. Supermodelo internacional russa, ela era um exemplo de como as mulheres deveriam ser. Ao contrário da maioria das magricelas, Alexandra tinha alguns quilinhos a mais nos pontos certos, o que a tornava interessante, exótica até, para o meio. E esses traços a tornaram a modelo mais bem paga do mundo, quase rivalizando Gisele Bundchen.

Apesar de seus claros atrativos, quem mais chamou atenção de Chris não foi Alexandra. Uma bela mulher, de origem francesa e traços aristocráticos, apareceu e trouxe atenção a si dos repórteres e jornais. Era a mesma bela mulher que Chris tinha visto em seu sonho: tudo estava se tornando realidade! Preocupado, ele se aproximou rapidamente de sua irmã, que estava conversando com seu estilista, mas logo foi puxada de lado por Chris.

- O que foi? – disse Kate, se livrando do puxão.

- Quem é ela? – disse Chris. – Eu nunca vi aquela modelo antes.

Kate sorriu e depois fez aquele rosto de mulher informada versus homem desligado. – Aquela não é uma modelo, apesar de que poderia ter sido. Seu nome é Felícia DuMont. Lembrou de algo?

Felícia DuMont. A Casa DuMont era uma família poderosa na França que sobreviveu por séculos, inclusive a Reforma e Napoleão. Aristocratas e milionários, os DuMont possuíam investimentos em todos os lugares. Mas Felícia era especial: desaparecida por anos, ela retornou recentemente e se tornou foco da mídia e jornais do mundo inteiro.

- E, claro, ela é a ex do Vetor. Esse pessoal da Vanguarda é bastante famoso, não acha?

Chris ignorou o comentário de sua irmã e esperou o momento correto para conversar com a beldade. Em um momento, utilizando seus poderes precognitivos, Chris jogou um lenço de seda que fez com que um garçom caísse por cima dos homens que estavam conversando com Felícia. Ela nem ao menos piscou para o perigo, o que atraiu ainda mais a atenção de Chris.

Agindo como um cavalheiro, Chris se aproximou de Felícia. – Com licença, senhorita, você está bem?

O garçom fez cara de como se essa fosse sua fala, mas ignorou e continuou tentando convencer os outros de seu pequeno “erro”. – Americano. – disse Felícia em inglês britânico perfeito. – O que o traz aqui, caubói? – ela sorriu, bebendo um gole de seu champanhe.

- Bem, é meio embaraçoso, mas estou aqui servindo como “guarda-costas” de minha irmã. – Chris percebeu que dizer a verdade seria melhor. – Mas o serviço de proteção de uma supermodelo não é bem meu estilo.

Ela riu e percebeu a semelhança entre Chris e Kate. – Então… você é irmão da favorita americana? Pois acredite, ela é muito bonita.

- Você também. – ele disse. – Sinceramente achei que estaria aqui representando as francesas, mas liderando seria melhor.

- Oh, charmoso e educado. – ela se recostou numa cadeira, sentando. – Creio que minha vinda ao evento não tenha sido de total perda.


Duas horas depois

“Todos eles vão pagar”.

O Caçador sentiu um frio na espinha. Essa sensação de perigo o forçou a ativar todos os seus sentidos, procurando o inimigo. Mas ele era incapaz de encontrá-lo. “Como?”, pensou, “Ninguém consegue se esconder de meus sentidos!”

Como reflexo, o Caçador pulou e caiu ao chão segurando Felícia DuMont. Centésimos de segundo depois, uma rajada de metralhadora romperia o clima calmo do evento. Vários homens e mulheres procuravam cobertura, enquanto um soldado era fuzilado sem que ninguém pudesse fazer nada.

“Kate!”, pensou imediatamente o Caçador. Detectando a mente de sua irmã entre as centenas do local era fácil, afinal eles tinham crescido juntos. Ela estava no banheiro, segura, retocando a maquiagem até que as balas começaram a voar.

O atacante, rapidamente, puxou uma pessoa específica do local e levou como refém, atirando nos guardas do evento com grande habilidade. O homem tinha estatura alta e falava em francês, para desagrado do Caçador. Entretanto, ele conseguiu discernir as intenções, principalmente aquelas de que sequestro.

Quando o homem partiu, Chris ajudou Felícia a se levantar. A confusão tinha deixado suas vítimas: quatro guardas mortos, dois feridos levemente, mas nenhuma vítima entre os outros convidados. Sentindo que isso não tinha acabado, Chris sabia o que tinha que fazer.

- Eu tenho algo a fazer!

Chris se sentiu surpreso: os dois, Felícia e ele, tinham falado a mesma frase ao mesmo tempo. Por um momento ele pensou que aquilo era apenas coincidência, então ele lembrou do sonho. Ele tinha que manter Felícia fora disso.

Quando Felícia estava para sair, Chris se aproximou furtivamente dela. Com um golpe rápido, ele a imobilizou e cortou seu suprimento de ar. Em alguns segundos, Felícia estava caída ao chão como uma vítima que desmaiou ao ataque. O golpe foi perfeito e ela não notaria que foi Chris quem o aplicou.

Correndo para o carro, Chris abriu o porta-malas onde estava uma maleta com chave biométrica. “Vanessa, eu te amo!”, pensou ao fazer os testes biométricos. O novo traje do Caçador era mais leve e portátil, podendo ser levado em quase qualquer contêiner. E o sistema de segurança impedia que certas pessoas curiosas – Kate Collins – bisbilhotassem. Mal de família.

Não demorou muito para rastrear o homem que atirou. Ele tinha corrido para a estação de trem do Louvre, atirando para todos os lados, mas não ferindo ninguém. As autoridades estavam perplexas, pois ele parecia destemido. Mas o Caçador sabia que algo estava errado. Por alguma razão, o homem não era maligno, ou tinha intenções para matar. Os sentidos do Caçador estavam entrando em conflito: ele sentia que o homem era uma ameaça, mas não a ameaça em si. O que estava acontecendo?

Tudo isso mudou quando ele carregou o homem desmaiado no ombro por toda Paris até a região das galerias aquáticas. A polícia parisiense perdeu seu rastro: ele se deslocava mais rápido que um carro e conhecia bem a cidade. Mas ele não era capaz de escapar do Caçador, que estava sempre descobrindo seu próximo passo.

Foi quando o agressor entrou em um armazém abandonado que tudo fez sentido: então era de lá que vinha sua visão! Mas tudo estava bem, porque Felícia estava segura e só havia um sequestrado.

Uma presença se aproximava pelas costas do Caçador. Com rapidez, ele puxou sua pistola e apontou para o local. Lá estava ela, de pé, firme e com uma pistola de tiro único apontada contra ele. Felícia DuMont.

- Mas como? – o Caçador não conseguiu deixar escapar.

- Como eu cheguei aqui? Eu sinto o cheiro do sobrenatural a quilômetros. Como eu estou acordada? Eu posso me fingir de morta tão facilmente quanto uma atriz de teatro. Como eu sei o que está acontecendo? Porque estou na trilha deste monstro a semanas. Esta criatura toma o controle de corpos humanos vulneráveis e os assassina. A razão eu não sei, mas isso acaba hoje. E ou você sai do meu caminho ou me encara agora, Shadow Hunter!

O Caçador estava num misto de surpreso e alegre. Surpreso pelas capacidades paranormais de Felícia, que ele esqueceu de perceber no momento em que conversava com ela, mas alegre porque ela estava do seu lado. Ele logo baixou a arma, mostrando que estava do lado dela.

- E então. – ele falou, tentando disfarçar a voz. – É bom me repassar um pouco do francês aqui. Estou enferrujad

Ela baixou a arma e demonstrou uma personalidade completamente diferente da Felícia DuMont da festa: fria, séria, completamente desprovida de gracejos ou distrações, completamente focada no objetivo. Agachando-se ao lado do Caçador, ela mirava com sua pistola exótica em direção do armazém.

O Caçador percebeu que a pistola era mística e que permitia que ela visse através das paredes, observando o ambiente. Sete pessoas estavam lá, presas, inclusive o agressor, comprovando a teoria de Felícia.

- Então, o que faremos agora? – perguntou o Caçador. – Você é a especialista em criaturas sobrenaturais, certo?

Ela olhou de lado para o Caçador e, após alguns segundos, respondeu. – Você pega a entrada dos fundos. Eu vou pela frente.

- Normalmente eu pego a entrada dos fundos… mas não seria melhor que eu trabalhasse na da frente hoje?

Ela se levantou. – Suas armas não podem feri-lo, Caçador. Todos os sentidos terrenos são nublados pelas habilidades dele. Ele se move pelas sombras como ninguém. Um fantasma. Enquanto eu o distraio, você resgata as pessoas.

- Certo… espera, você o distrai? Não vai destruir essa coisa?

Com um olhar cortante ela retira o sorriso por debaixo da máscara do Caçador. – Eu não sei se posso derrotá-lo.


Armazém abandonado, 23:35

- Todos vocês! – gritava a voz das sombras para as pessoas aterrorizadas em suas cadeiras. – Todos vocês vão pagar pelo que fizeram! Vão sofrer e muito mais de vocês vão ser destruídos!

- Não se eu puder impedir, criatura!

Felícia, sem rodeios, entrou disparando com sua pistola mística ao teto. Um flash cegante revelou uma criatura humanoide escondida nas sombras, mas composta por elas. Entretanto, quando a luz se apagou, a criatura pode ser ouvida espalhando sua essência por todo local.

- Vejam só? Heróis!

O Caçador estava se aproximando das vítimas para libertá-las quando caiu a ficha: “Ele falou heróis?”

Em um movimento só, todos os sentidos do Caçador o alertaram ao mesmo tempo, mas tarde demais. Um golpe profundo perfurou o ombro do Caçador e ele sentiu um veneno terrível invadindo seu corpo. Aos poucos perdendo as forças, ele viu Felícia tentando derrotar a criatura. Entretanto, um segundo vilão apareceria nas costas dela e a derrubaria de surpresa.


Uma hora depois

O sonho se realizava. Pelo que o Caçador podia entender, a criatura tinha capturado vidas demais. Ele pouparia a vida do Caçador e de uma pessoa que ele escolhesse. Mas essa decisão não podia ser feita, o Caçador não podia escolher a vida de uma entre outras pessoas.

Enquanto pensava num jeito de escapar, ele percebia que as pessoas estavam totalmente aterrorizadas. Elas não conseguiam pensar direito. O Caçador nem ao menos conseguia sentir a criatura sobrenatural que nublava seus sentidos. Pela primeira vez, o Caçador estava encurralado, sem alternativas.

Mas sim, havia uma, apesar dele não gostar dela.

- O que eles lhe prometeram, fantasma? – disse o Caçador. – Ressurreição? Glória? Dinheiro? Pra que diabos você quer isso? Você morreu!

O Caçador sentiu seu ombro ser perfurado um pouco mais e gemeu da dor. – Vingança seria o termo correto! – disse a criatura das trevas. – Todos eles são culpados, mas vocês não! Por isso eu estou te dando a chance de se salvar e sua companheira… ou qualquer outro que esteja interessado.

O Caçador deu mais uma olhada para ter certeza que Kate não estava entre os capturados. Felícia estava amordaçada, incapaz de falar com ele. Então o Caçador tinha que usar a cabeça para enfrentar um inimigo que não podia enxergar e lutar.

- Pois bem… – disse o Caçador. – Pode matar todos! Eu não me importo com nenhum deles!

Essa resposta foi bastante surpreendente, até mesmo para a fria Felícia DuMont. Uma aposta arriscada, o Caçador viu que seu plano podia fracassar totalmente. Mas ele apostou corretamente e teve seu prêmio.

- Não! – gritou de raiva a criatura das trevas, retorcendo sua garra maligna e causando mais dor no Caçador. – Você tem que escolher! Apenas oito ele disse, eu não posso dez! Oito é o número, oito daqueles que me maltrataram, que eu odiava em minha vida! Você não pode me forçar a dez! Por favor… – agora a criatura já implorava. – escolha um!

Uma criatura metálica surgia das trevas. O Caçador já tinha percebido o segundo paranormal há algum tempo. – Fantasma. Não temos mais tempo, termine o que começou. – disse o homem por detrás das sombras.

- Não! – gritou as criatura das trevas. – Eu não posso! Apenas oito! Oito!

Agora o homem já aparecia completamente na pequena luz no centro do armazém. Ele tinha pelo menos dois metros de altura e era extremamente forte. Seu rosto estava coberto por uma máscara e estranhamente o Caçador não conseguia ver por debaixo dela.

- Oito, então. – disse o homem, se aproximando de uma das vítimas com um enorme facão nas mãos. – Vamos reduzir sua parte!

- Eu não faria isso! – gritou o Caçador.

- E porque não? – retrucou o paranormal, com o facão no pescoço de uma das vítimas.

- Por que… por que… – o Caçador foi interrompido com um raio que rompeu os céus e atacou o paranormal, jogando-o longe da vítima.

- Porque ele chamou reforço, bundão!

Uma mulher flutuava descendo do buraco causado pelo raio. A iluminação causada foi suficiente para que a criatura removesse suas garras de Felícia e do Caçador, facilitando sua fuga. Ela era Raindance da Vanguarda, que o Caçador tinha chamado o reforço há alguns minutos.

- Um obrigado ajuda, Caçador! – gritou Raindance, com eletricidade faiscando de seus olhos e mãos.

- Tanto faz. – disse o Caçador, orgulhoso. – Eu teria descoberto um jeito de qualquer forma.

- Arram. – disse Raindance, em tom sarcástico. – Isso antes ou depois de ser devorado por uma criatura das trevas?

- Menos conversa! – disse Felícia. – Eu e o Caçador vamos atrás do Fantasma! Você Raindance derrota o outro!

- E quem seria ela? – perguntou Raindance.

- Longa história! – falou o Caçador, pulando atrás do Fantasma.

Entrando mais profundamente nas galerias aquáticas parisienses, a escuridão cercava mais uma vez os dois.

- Nós teremos apenas uma chance antes que ele ataque novamente. Você não deve errar de maneira alguma, Caçador.

- Não se preocupe. – disse ele, preparando a pistola. – Dessa vez ele não escapa.

Se aproximando de uma convergência de túneis, Felícia sentiu a presença da criatura e alertou o Caçador. Com um movimento rápido, ela iluminou todo o ambiente e antes que o Fantasma pudesse atacar, o Caçador disparou seus dardos tranquilizantes nele. Caído ao chão, o Fantasma estava capturado.

Mas logo o Caçador ficou abismado. O Fantasma estava morto!

- Mas como? Eu usei munição tranquilizante!

Felícia tocou no ombro do Caçador que estava com um peso na consciência. Teria ele matado acidentalmente alguém?

- Não se preocupe, Caçador. Ele está morto de qualquer forma… apenas as sombras o mantinham como um Fantasma.

Aliviado, o Caçador e Felícia retornaram até o armazém, que estava em chamas.

- Mas que diabos! Eu deixo um minuto o local e ele já tá pegando fogo!

Uma nuvem de chuva se formou sobre o armazém e logo apagou o incêndio. Obra de Raindance certamente.

- O maldito é esperto. Ele tinha tudo planejado, fugiu do local e desapareceu. Não consegui encontrá-lo, estive ocupada apagando o incêndio.

- Certo. – riu o Caçador. – Conte essa história pra si mesma quando for dormir, tudo para lhe convencer que não errou.

Raindance claramente ficou irritada, mas após libertar os reféns, ela perguntou: – E onde está seu prisioneiro?

O Caçador estava trazendo Fantasma no ombro, mas quando percebeu ele tinha desaparecido. Aparentemente o Fantasma era invisível a todos os sentidos, inclusive o tato.

- Conte essa história para si mesmo antes de dormir, ‘Batman’. – disse Raindance, criando um tufão para levar os reféns. – Você…

O Caçador e Felícia tinham desaparecido repentinamente.

- Amostrado. – concluiu Raindance.


Hotel Bortón, 17/01/2012, 09:56

- Pronto para partir, monsieur Collins?

Chris sabia que ela tinha vindo, mas queria ver com os próprios olhos. Felícia DuMont, encostada em sua porta, olhando para Chris enquanto era expulso de seu quarto por sua irmã.

- Bem… – disse Kate. – Você pode pegar o voo das cinco, é claro!

Após Kate sair, Felícia entrou no quarto e sentou na cama. – A que honra devo a visita, mademoiselle?

Felícia riu. – Seu francês é horrível! Mas eu nunca tive a oportunidade de agradecê-lo por ontem. Seu pensamento rápido salvou minha vida, monsieur Collins.

Chris sentou ao lado dela. – Chris, por favor.

- Então… Chris. – disse ela, se aproximando dele. – Já vai, tão cedo?

- Bem. – ele também se aproximou da francesa. – Tenho certos, afazeres nos Estados Unidos. Quem sabe você não me visite uma vez ou outra?

- Talvez.

E com isso, os dois se beijaram, sentados a cama. Após alguns momentos, Felícia se levantou e, olhando para trás, sorriu para Chris.

- Bem, eu posso visitá-lo de vez em quando… Shadow Hunter.

Chris ficou ali, parado, sem esboçar reação. Já era a terceira vez que era surpreendido nesta viagem para a Europa, mas desta vez foi de forma agradável. Como ela descobriu não importava. Mas que Felícia DuMont estava em sua mente agora, era a verdade.

“Droga, porque é que eu tenho que voltar para Nova York!”.


Louvre, 17/01/2012, 17:11

Um homem alto de compleição forte, mas de rosto envelhecido, esperava olhando a Mona Lisa no salão do Louvre.

- Então, é assim que começa.

- Senhor? – disse um segundo homem ao lado, que mostrou ser o mesmo do armazém. – Falou algo?

- Nada. – disse o homem velho, respirando profundamente após apreciar a obra.

- Bem. – disse o homem do armazém. – Nós mostramos que eles são vulneráveis, não?

- Sim. – disse o homem. – Ele conheceu a dor.

- Ele acha que conhece a dor? – falou o segundo homem, removendo um rosto falso e mostrando pele arrancada por debaixo. – Eu mostrarei o que é dor!

View
A Caçada Vermelha
Ascensão #2

- Já faz algum tempo, capitão.

Fazia dez graus centígrados abaixo de zero e Mikael Pruti não estava nem um pouco confortável com aquela ligação, naquela hora, naquele lugar, naquele momento da história. Mas o Capitão John Miller tinha salvo sua vida mais de uma vez em mais de uma missão e ele não estava disposto a deixá-lo na mão.

Principalmente porque ele poderia mudar de ideia quanto a saúde farta de Pruti.

- Sim, sargento. – o homem de quase dois metros de altura senta ao lado do pequeno polonês, que se encolhe no banco da estação. Um grande movimento se passa pelo ambiente, com trens saindo e entrando de Moscou. Oficiais do regime comunista continuam com seus afazeres, pouco se importando com a crise que a união passa pelo momento.

- Trouxe o que pedi? – Mikael se encolhe ainda mais com o olhar ameaçador de Miller. – Eu espero que não tenha perdido meu tempo aqui, velho amigo.

- Você não perdeu. – Mikael sorriu, se afastando um pouco para o lado do banco e puxando uma pequena maleta. Nela estavam contidas duas pastas, uma vermelha e outra azul, cada uma com duas trancas.

- A segunda chave – disse Mikael – não consegui adquirir. O próprio secretário de estado expressou interesse por este assunto.

- Verdade? – disse Miller, puxando uma das pastas.

- Sim, – respondeu Mikael – eu consegui a primeira chave de herança de cargo. O país está em crise, e estas coisas são facilmente perdidas. Mas a segunda chave estava numa instalação de pesquisas. Eu não pude arriscar minha posição ao requisitar uma visita a ela… a KGB está muito desconfiada de traidores nestes dias.

- E ela deixou de ser desconfiada? Pelo que me lembro, nossos oponentes mais formidáveis foram agentes da KGB.

Mikael coçou o pescoço. Nele, a lembrança de um agente da KGB que havia descoberto sua posição de agente duplo: uma cicatriz de munição 7.62mm. Não fosse pelo ótimo reflexo de Miller, Mikael teria provavelmente perdido seu pomo-de-Adão no conflito.

- Parece preocupado, meu amigo. – Miller disse. – Não tema. Eu resolverei este problema. Vou conseguir a segunda chave ao amanhecer.

Os olhos azuis de Mikael perderam o brilho após proferidas tais palavras. – Amanhã? – ele disse, como se tivesse um nó na garganta – Mas… – ele gaguejava – ela está guardada no quartel-general da KGB. O próprio Cedav está guardando esta chave. É impossível…

Miller interrompe Mikael pressionando seu ombro com sua imensa mão. – Impossível, Mikael? – ele sorri – Quantas vezes já falaram estas palavras para mim? Eu ainda estou aqui, não estou?
- Você está, John, mas por quanto tempo? O mundo está mudando, você tem que deixar isso tudo para trás.

Mikael logo se calou. Ele sabia que tinha cutucado a ferida do tigre que lhe encarava. Seus olhos implacáveis não deixavam um detalhe escapar: suor, tremores, olhares perdidos, batidas cardíacas…

- Mudando? Só sobre meu cadáver.


Киев
12 августа 1989
1225

- Camarada Cedav! – batia o oficial Zakhar na porta do Segundo Diretor Cedav – Tenho um relatório que o senhor gostaria de ler.

Zakhar estava debruçado sobre sua mesa com seus óculos de leitura apreciando uma pintura de um ucraniano de 17 anos. Seu objetivo era determinar se não havia qualquer tipo de mensagem secreta para a juventude soviética escondida. O quadro, de qualidade incontestável, tinha sido alvo de críticas benéficas de muitos artistas comunistas, e até alguns ocidentais. Era os ocidentais de que ele tinha mais medo: mesmo com o rumo que a União Soviética passava, ele não relaxava seu trabalho.

- Camarada Zakhar, – ele continuava analisando a pintura – eu acredito que este documento tenha nível de autorização no mínimo 3, para que o camarada possa lê-lo e me dizer tais detalhes. Porém, eu não acordei hoje para verificar nenhum tipo de relatório de autorização 3, no mínimo 5.

O oficial Zakhar parou por um instante em sua impulsiva excitação pelo ocorrido. – Camarava Cedav, está pelos jornais, noticiários… a censura não conseguiu impedir que isso saísse na mídia.

Cedav parou imediatamente de analisar a pintura. “O censor não conseguiu?” pensou ele. – Leia para mim o documento, camarada.

- “Às 6:41 desta manhã, 12 de agosto de 1989, se foi detectado uma confusão na Estação de Trem de Moscou. Um homem, de aparência forte e traços ocidentais, assassinou em frente a todos um oficial político da marinha soviética, Mikael Pruti. Em seguida, sem provocação, assassinou outros três guardas policiais da estação, roubou suas armas, e assassinou mais 18 membros da guarda local e dois agentes disfarçados da KGB. Não se sabe as intenções do assassino, mas sabe-se que ele estava sozinho e desarmado no começo da confusão.”

Cedav finalmente prestou atenção. – Isso tudo saiu nos jornais?

- Não, camarada Cedav. O que saiu nos jornais foi um tiroteio de protestantes. Mas o importante foi que a foto do assassino foi tirada.

Com as mãos firmes, agora totalmente ereto, Cedav pegou das mãos de Zakhar a foto. Ela estava borrada, claramente tendo sido tirada por um guarda policial em desespero. Mas apesar da imagem ruim, Cedav não tinha dúvidas de quem estava na foto. O seu nêmesis havia retornado.

- John Miller. – disse Cedav, semi-catatônico.


КГБ форпост
12 августа 1989
2157

A noite estava mais fria que a manhã e o vento gelado cortava a pele desprotegida. Miller apenas esperava pacientemente enquanto o posto de vigilância da KGB alternava as rondas de patrulha. Após analisar o comportamento dos soldados por quase duas horas, ele retornou correndo para o seu veículo, habilmente escondido na vegetação local.

- Retificador, está em posição?

Dois quilômetros de lá estava um homem praticamente invisível a olho nu, camuflado na neve e arbustos locais da tundra russa. – Afirmativo, capitão. – ele respondeu – Estou vendo doze alvos, além de cinquenta dentro da instalação.

- Copiado. Dê sinal verde para Karen.

Após alguns segundos, os patrulheiros prestariam atenção a uma mulher semi-nua se aproximando do portão principal da instalação. A mulher tinha um corpo branco como a neve e prateados como o luar. Não demorou para que os patrulheiros se aproximassem, na intenção de socorrer a donzela perdida.

- Mulher! – gritou o patrulheiro – Esta é uma instalação militar soviética. Vou ter que pedir que nos acompanhe para ser interrogada.

O Retificador determinou a ameaça. – Capitão, eu tenho três na mira, posso prosseguir.

Miller parou por um instante e logo respondeu. – Negativo, Retificador. Você e Zumbi avancem o perímetro. Deixem Karen se divertir um pouco…


поверхность основания
12 августа 1989
2203

- O que está acontecendo lá fora? – gritava Cedav. – Posso escutar os gritos dos homens daqui!

Os soldados da instalação da KGB se moviam. Todos os soldados de folga estavam se preparando para batalha, enquanto os preparados se dirigiam para a base da superfície. O próprio Cedav se armava, sabendo o tamanho do problema que enfrentava.

- Camarada, estamos sendo massacrados aqui fora! – gritava Zhakar pelo rádio – Chame ajuda, por favor!

Cedav sabia que esta seria o sensato a se fazer. Em cinco minutos ou menos, MiGs estariam bombardeando a área enquanto todos se esconderiam no subterrâneo. Mas ele sabia o que estava guardando. Não era uma coisa que ele gostaria que o Kremlin saíssem por aí bisbilhotando.

- Zhakar! – respondeu Cedav – Isole o inimigo em partes. Coordene o fogo com a artilharia e tanques.

- Camarada, mas…

- É uma ordem Zhakar! – enfatizou – O que temos escondido aqui não pode sair daqui, nem mesmo para o Kremlin!

Zhakar entendia perfeitamente. Como oficial executivo, ele tinha os mesmos privilégios de Cedav. Mesmo assim, enfrentar aquelas criaturas parecia loucura.

- Muito bem Cedav. – respondeu – Mas com uma condição: acione o Protocolo Stalin.

- Ainda é muito cedo, Zhakar, nós…

- Imediatamente! – ele berrou pelo rádio, insultando claramente seu superior – Ou eu mesmo descerei aí e o removerei do comando.

- Camarada Zhakar, vou fazer o que diz. Mas marque minhas palavras: se sobrevivermos, teremos uma longa conversa sobre cadeia de comando.


подземной базе
13 августа 1989
0000

- Zhakar!

Cedav chamava pelo rádio, contra seus próprios instintos de estrategista, torcia por uma resposta positiva de seu segundo no comando e amigo. Mas a batalha já tinha acabado há pelo menos uma hora, e o inimigo apenas esperava. O inimigo esperava Cedav perder a esperança, perder o controle e sua sanidade.

Estava funcionando.

Em plena meia-noite, Cedav finalmente abria a porta blindada que protegida a base subterrânea de ataques da superfície. Era possível notar que, apesar de ter quatorze centímetros de aço, ela estava bastante desgastada com impactos. Seja lá que tipo de bombardeio tivesse feito isso, Cedav estava cansado de se esconder.

Cansado por dez anos.

De pé ao lado de sua escrivaninha em seu escritório, ele apenas esperava. Cedav sabia que Miller tinha cortado seu suprimento de ar e logo morreria sufocado. Não era a morte que ele buscava.

Alguns segundos depois de aberta a porta, quatro indivíduos entraram pela porta. Um deles, com o corpo todo ensanguentado, parecia mais um animal do que uma pessoa. O outro estava com um sorriso em seu rosto, como se tivesse aproveitado todo o conflito como uma espécie de jogo – e a pistola de Zhakar em seu cinto deixou Cedav fora de si por um segundo. A única mulher do grupo parecia uma mendiga, com sujeira, pólvora, terra, sangue e carne espalhada pelo seu corpo, mas mesmo assim sua beleza ultrapassava as barreiras do natural.

E ele. É claro.

- Há quanto tempo, Cedav.

- Dez anos, Miller.

- 3651 dias, 23 horas e 58 minutos, Cedav. – ele se aproxima – Eu não esqueci de nada ainda.

Cedav encarava seu carrasco com o orgulho soviético. Mas ele tinha medo. Não era um medo da morte, ele já tinha aceitado. Não era medo da história, pois ele seria julgado como um censor nos anos seguintes, para o bem ou mal. Não era medo pela sua família, pois ela já tinha sido morta antes, pelo próprio Miller. Também não era medo pela humanidade, pois ele achava que ela já estava condenada mesmo.

Era medo daquilo. Quando ele viu aquilo, ele não conseguiu resistir ao verdadeiro medo.

- Cedav, onde está a segunda chave?

- Miller, você vai usar aquilo? Jamais pensou que poderia estar cometendo um erro?

- Aquilo não me interessa. Eu tenho apenas um objetivo e aquilo não terá nada com isso.

Cedav sorri, por alívio, sabendo que Miller, apesar de um assassino implacável, não teria mesmo nada com aquilo. – Muito bem, mas você está tarde. Eu ativei o Protocolo Stalin.

Com um movimento impressionante, num segundo Cedav estava de pé, no outro estava no chão, com a mandíbula partida em vários pontos. – Você fez o quê?

Com muita dificuldade em respirar com um osso perfurando sua faringe, Cedav simplesmente relaxou. Em seu rosto desfigurado por um golpe impossível, as bochechas de Cedav apenas apresentavam um aspecto de sorriso.

Depois disso, morreu.


Aeroporto Internacional de Guarulhos-São Paulo
16 de Agosto de 1989
1955

- Aqui nos dividiremos. Um dia, com certeza, estaremos reunidos novamente.

Todos os membros seguem seus caminhos, tomando rumos que mais tarde moldariam o destino de muitos. Antes de que partisse, Karen retornou a Miller e, num movimento rápido, tomou sua frente. Miller apenas observou o deslocamento rápido e gracioso de sua ajudante que tanto lhe proporcionou momentos de prazer.

- Então é isso? – disse Karen, com sua voz sensual – O Protocolo Stalin foi tudo isso?

- Sim. Ele atrasou nossos planos em muitos anos. Talvez até uma década. Mas nós conseguiremos novamente, Karen.

Ela sorri, achando graça os sonhos de um velho capitão. – Muito bem, capitão. Você sabe que é impossível impedir a mudança. Ela está vindo, quer queira, quer não.

Miller apenas olha para Karen com seus olhos azuis implacáveis. – Mudando?

View
A Melhor Hora
Ascensão #1

03 de Julho de 1984

– Você finalmente chegou almirante.

A sala de conferência ficava apenas a cem metros de distância do escritório do Almirante Jones. Mas na véspera do feriado ele deveria estar no supermercado comprando comida para a festa.

Mas um chamado do próprio presidente não pode ser recusado, nem mesmo pelo diretor da CIA.

– Poupe-me do papo-furado, Clark. – disse Jones, claramente irritado com a situação. – Ainda tenho que comprar todos os ingredientes para Sarah fazer o serviço.

– Perdão, almirante. – Clark se sentou logo após de Jones. – Mas o ocorrido necessita de sua total atenção.

Com o apertar de um botão em sua mesa, Clark ativaria um projetor que mostraria o atual posicionamento da Frota da URSS. Jones, por um segundo, se impressionou com a velocidade com que os soviéticos estavam deslocando a frota pelas Filipinas e no Atlântico.

– Já contataram o Comando Geral da OTAN? – perguntou Jones.

– Sim, mas nem eles sabem a razão desta movimentação estranha. O melhor palpite deles é que eles estejam preparando exercícios de guerra e aprimorando alguns de seus navios e aviões mais antigos.

Jones parou por um segundo, arrumou seus óculos e entrelaçou as mãos. – Qual é o nosso palpite, Clark?

Clark suspirou. – O mesmo, pra variar. – ele mostrou alguns documentos para Jones. – Nossos analistas propõem uma movimentação similar para bloquear qualquer furo em nossa rede de defesa de sonares.

Jones folheou os documentos até chegar numa análise completamente diferente das concedidas. Parando por um minuto para ler o relatório, ele ficou bastante impressionado com a escrita e a gravidade implicada pela teoria.

– O senhor nem vai querer ler essa. – disse Clark, rindo do relatório.

– Por quê?

– Este é um dos nossos novos analistas. Ele é especialista em Grobachev e escreve muito bem. Mas o cenário que ele descreveu é tão surreal que todos os revisores consideraram até mesmo um absurdo entregar o relatório para o senhor. Provavelmente o analista deve ter escondido junto aos outros relatórios.

Em condições normais, Jones concordaria plenamente com Clark. O relatório estava bem escrito, estruturado, mas não havia nenhuma evidência que sustentasse tal teoria.

Mas Jones sabia que havia uma.


– Tenente Jackson Muller Cross, eu presumo.

Cross finalmente tinha chegado a Langley para se apresentar ao Almirante Jones. A sala de Jones parecia um retorno aos anos 50, com mobília bastante típica daquela época. Mas o tenente sabia que não tinha sido chamado para apreciar o bom-gosto do almirante.

– Sim, senhor.

– Este ao meu lado é o agente especial Clark Weyton. Eu soube que você obteve autorização de segurança nível 3, certo?

– Correto, senhor.

– Ele concedeu algumas avaliações corretas para a agência, almirante. – disse Clark. – Depois disso, concedemos um nível 3 para que ele continuasse nos auxiliando.

– Mas pelo que parece, você não se satisfez com o último relatório dele. – o almirante puxou um charuto de sua escrivaninha. – Aceita um, tenente?

– Não senhor, eu não fumo.

– Claro. – ele acendeu o charuto e ofereceu um a Clark – Nós também sabemos disso. Não seríamos uma boa agência de inteligência se não soubéssemos.

– Nós queremos saber a razão destas afirmações do relatório. – disse Clark – Todos os nossos outros analistas implicam como infundado, sem nenhuma base de apoio e com muitas conjecturas.

– Senhor, eu sei que isso parece incoerente…

– Para dizer o mínimo. – implicou Clark.

– Mas as conseqüências que causariam se isso fosse verdade seriam terríveis. – concluiu Cross.
Jones parou por um segundo. – Tenente, o que você escutará aqui dentro é totalmente secreto. Apenas oito pessoas sabem disso, sendo Clark e você fechando com dez.

– Eu entendo senhor.
Clark ficou aturdido com essa declaração, afinal, ele era um especialista em descobrir segredos.

– Em 1945, o Secretário de Defesa aprovou a ordem de uso do Projeto Trinity para lançar armas nucleares sobre alvos civis japoneses. Mas o presidente Eisenhower só viria assinar a ordem nos últimos meses do ano. Antes disso, um fato curioso aconteceu.


– Entendido, senhor. Eu compreendo a gravidade da situação.

Cross estava no limite de sua resistência ao medo. Apesar de ter treinado muito para este tipo de situação, ele sabia que não apenas a vida dele estaria em jogo desta vez.

– Então pode se retirar, tenente. – disse Jones – Temos um convidado chegando ao heliporto. Ele o auxiliará em sua tarefa. Clark se unirá a você logo depois.

– Sim, senhor.

Após Cross sair da sala, Clark se levantou e deu uma baforada de seu charuto. Ele olhou de volta para Jones, que já previa o comentário sarcástico de Clark.

– Então… é este cara que vamos confiar o segredo? – ele deu uma risada – Qual a razão disso, se me permite perguntar, almirante?

– Ele tem um conhecimento tático impecável. E ele foi o único a ter esta conclusão, dentro de 300 analistas. Sim, ele é o candidato ideal.

– Ideal – Clark fez uma pausa – eu duvido, mas o garoto é necessário.

O almirante finalmente perdeu sua paciência. – Dê a ele uma chance, pelo amor de Deus, Clark! – ele se levantou – Este “garoto” foi o único sobrevivente do Black Hawk 13HB.

Clark parou de sorrir no mesmo momento. – Então, é ele? Mas ele parece bem!

– Ele passou um ano inteiro com suportes para a coluna, caminhando com ajuda até recuperar todos os movimentos. Depois, ao invés de pedir baixa, como a maioria dos soldados pediria, ele requisitou ser transferido para o combate novamente.

– Eu não fazia idéia… – disse Clark, envergonhado.

– Dê algum crédito a Cross… ele merece.


– Quem está chegando? – gritou Cross, tentando romper a barreira da chuva e chegar aos ouvidos de Clark.

– O nome dele é Miller.

– Você quer dizer Capitão John Miller? – disse Cross, surpreso. – Eu não esperava ver uma celebridade tão cedo.

Clark riu. Ele sabia que Miller era uma celebridade, pelo menos para os analistas da CIA. Agente de campo há quinze anos, Miller tinha mais experiência que muitos generais.

– Sim. É o próprio. Nascido na América, forjado no Vietnã, treinado pelos melhores dos melhores. Ele é o seu parceiro agora.

Antes que Cross esboçasse alguma surpresa, Miller se aproximava dos dois.

– Agente Especial Clark, este é o Tenente Jackson Cross.

Cross prestava continência ao seu superior. Após avaliar Cross dos pés a cabeça, Miller finalmente respondeu.

– À vontade, tenente. Eu li a situação no caminho. Aparentemente, este tal Protocolo Stálin é algo de preocupação nacional.

Clark consentiu apreensivo. – Sim, até o Presidente Morgan está prestando atenção ao caso. – ele continuou a caminhar até o posto de operações. – O tenente Cross previu tal situação.

– Sério? – ele olhou o jovem Cross de relance. – E o almirante aceitou assim, sem pestanejar.

– Ele confia plenamente em Cross, capitão. – afirmou Clark.

– Certo. – Miller pegava um par de charutos, dispensado por Cross, e depois acendido.

– Para onde vamos? – disse Cross.

– Diga-me você, tenente. – sorriu Miller.


12 de Outubro de 1984

– Tem certeza que isso é uma boa idéia?

Após meses trabalhando juntos, Cross e Miller descobriram uma pista sobre o Protocolo numa usina nuclear ucraniana conhecida como Chernobyl. Mas quedas em HALO, apesar de treinamento básico para forças especiais, não tinham sido praticadas por anos por Cross.

– Claro, meu contato conhece os pontos fracos na rede de radares da Ucrânia. E se formos rápidos, não seremos detectados pelas tropas de terra.

A luz verde acendia e Cross saltava com Miller em pleno território inimigo. Em alguns minutos os dois estavam pousando em uma antiga instalação nuclear da Ucrânia, vasculhando documentos queimados.

– Acho que podemos conseguir algo daqui, senhor. – disse Cross.

– Me chame de Miller, Cross. – ele disse, jogando a pilha de papéis no chão. – Você me chamará de senhor apenas quando estivermos em público.

Após se mover um pouco na sala escura iluminada com apenas uma lanterna, Miller encontraria um compartimento secreto. Ele se moveria silenciosamente para dentro, deixando Cross para trás, encontrando materiais espalhados por uma sala iluminada e recentemente usada. Antes que pudesse chegar ao destino, ele seria surpreendido por dois soldados gritando em sua direção.

– Qual é, não vão me deixar passar?

Miller estava ficando ansioso com a situação tensa de dois soldados ucranianos apontando suas armas contra ele. Cross, escutando a situação, chegou por trás de um dos soldados e, chamando a atenção dele em russo, o desarmou. O segundo, antes que pudesse disparar, teve seu braço quebrado por um movimento tão rápido que Cross não conseguiu enxergar. Antes que pudesse esboçar qualquer reação, os dois foram desacordados por Miller com golpes precisos em seus narizes.

– Você sabe falar russo? – disse Miller.

– Os oito dialetos. – comentou Cross. – Eu era analista de comunicações da agência antes de ser enviado para o ambiente.

Sorrindo, Miller sabia que o almirante tinha feito a escolha certa. – Bom trabalho, Jax.

– Faz bastante tempo que alguém não me chama desse jeito. – disse Cross, rindo um pouco.

– Mas, Cross, o que me diz disso.

Apontando para os materiais, Cross ficou de súbito pasmo. – Todos esses são itens para construir uma arma nuclear. Temos a ogiva, o urânio, o detonador, mas não temos o catalisador de plutônio. – ele analisou um pequeno frasco – Há algo diferente neste frasco.

– Acha que tem haver com o Protocolo? – indagou Miller.

– Talvez. Mas porque criar um míssil com o Protocolo?

– Atacar os Estados Unidos, não? – Miller indicou o que parecia ser óbvio. – Os vermelhos não sabem perder, é bem capaz de lançarem o Protocolo sobre nós.

Cross segurou firme em suas mãos o frasco. – Não faz sentido. – disse. – Eles não têm nenhum controle sobre o Protocolo… porque lançar em nós?

– Vamos embora antes que se lembrem de que dois guardas não voltaram.


13 de Outubro de 1984

Hassam era o contato de Miller na Mossad para dar uma identificação positiva no Protocolo. De alguma forma, Cross não estava confortável com o que estavam fazendo. Entregar o conteúdo do material a um israelense de que ele não sabia nada não era sua melhor idéia de como se livrar do Protocolo. Mas Miller era seu superior e ordens eram ordens.

– Este material parece em perfeita ordem. Devo chamar meus seguranças para escoltá-lo? – disse Hassam.

– Não, nós mesmos cuidaremos disso.

– Como quiser, capitão.

Hassam tinha estudado o Protocolo por uma hora após Miller o ter recuperado. Do lado de fora, Cross estava traduzindo os papéis queimados encontrados na Ucrânia.

– Miller, identifiquei o conteúdo dos papéis queimados. – disse Cross. – Sumiram quatro cientistas do Centro de Pesquisas de Kiev.

– O quê? – ele verificou a tradução – Há quanto tempo?

– Três meses atrás. – concluiu Cross. – Eles eram um engenheiro nuclear, um físico quântico, um matemático estatístico e um biólogo.

– As pessoas necessárias para se construir uma arma NBC (Química, Biológica, Nuclear). Eu não sabia que os soviéticos estavam fazendo testes disso. Então, quer dizer que o Protocolo é algo desse tipo.

– Ou coisa pior. – disse Cross. – Descobri que eles se encontravam com alguém, um homem de terno branco. – Cross mostrava as fotos recuperadas – Este homem não está em nenhum de meus relatórios. Esta pode ser uma célula terrorista, não ação dos soviéticos.

– Isto ainda está para ser decidido.


15 de Outubro de 1984

– Certo, entendido, almirante.

No caminho para Bagdá, Miller tinha tido uma longa conversa com o almirante em uma linha segura.

– O que foi? – perguntou Cross.

– Assim que encontrarmos o agente reativo do Protocolo, teremos que destruí-lo.

Cross sentia que algo estava errado. – Você não parece feliz com isso.

– E não deveria. – Miller estava frustrado. – Poderíamos eliminar qualquer inimigo com esta arma, se apenas o Presidente Morgan não fosse tão teimoso quanto a isso.

– O Protocolo não pode ser controlado, Miller. – disse Cross.

– Ainda, Cross. – ele respondeu. – Ainda.


16 de Outubro de 1984

– Escondeu os corpos?

– Sim, eles estão bem guardados.

Cross e Miller estavam disfarçados na guarda de Gregory Kubrick. Um rosto para a sua própria agência terrorista, Gregory não era seu verdadeiro nome. Ele tinha descendência russa e, ao contrário daqueles nascidos nos Estados Unidos, não tinham nenhum gosto pelo país natal.

– Temos uma pequena brecha de tempo, Cross. Vamos entrar, pegar o agente reativo do Protocolo, e depois sair. Um helicóptero estará nos esperando do lado de fora do palácio.
Depois de dada a ordem de início da operação, Cross se levantou e descarregou sua AK-47 contra dois guardas na entrada, atraindo o fogo das sentinelas. Miller, com um físico avantajado, escalou uma parede de cinco metros e entrou despercebido pela guarda, que concentrava seus esforços em Cross.

Temeroso por sua vida, a primeira coisa que Kubrick buscou foi o reagente para fugir com ele. Movimento errado: Miller esperava por isso e eliminou dois coelhos com uma cajadada só, pegando o reagente com uma mão e esmagando o crânio de Kubrick com a outra.

Com uma granada de concussão, Miller destruiu a primeira torre, deixando espaço suficiente para Cross escapar. Quando passava pelo centro do palácio, Cross notava que muitos dos guardas mortos por Miller estavam com marcas de impacto grosseiras em seus corpos, indícios de pancadas muito violentas.

Cross já estava desconfiando que Miller tivesse uma força sobrenatural antes, mas agora estava confirmada. Ele tinha estudado os feitos do Capitão John Miller por muito tempo e em um ano, durante 1980, ele ficou por um ano inteiro nos Estados Unidos sem explicação. Todos os registros foram destruídos, mas Miller tinha sido promovido para capitão e tinha sua própria equipe. Desde então, suas missões tornaram-se cada vez mais perigosas e, em contrapartida, mais eficazes.
Finalmente Cross chegaria ao helicóptero. Miller já estava lá e Cross notava o sorriso de satisfação em seu rosto. Sua arma estava encostada na parede.

– Cross, me dê o reagente.

Com helicóptero já no ar, Cross ficou receoso.

– As ordens eram para destruir o Protocolo, Miller.

Miller sorriu, mesmo com a negativa de seu parceiro. – Eu sei, mas nós poderíamos fazer mais. Poderíamos lançar o Protocolo na própria Ucrânia, não acha? Destruiríamos a União Soviética e deixaríamos nosso país orgulhoso.

Cross balançou a cabeça negativamente. – Eu não vou fazer parte de um genocídio, Miller, nem se eu tivesse recebido ordens para fazê-lo.

– Pois está recebendo agora, Cross!

Cross parou por um momento. – Não! – resoluto, manteve sua posição.

– O que foi que lhe contaram? Que eu tinha perdido o controle? Que eu não estava “psicologicamente apto” para o serviço?

Lembrando da sua conversa com o almirante, Cross continuaria. – Eles te aceitaram para a missão, Miller, pois sabiam que era o único capaz de terminá-la. Eu sei que você não envelhece desde 1980. Eu sei que você sofreu modificações de um retro-vírus do Protocolo, tornando-o o soldado perfeito. Eu sei que você tem sonhos de grandeza para você mesmo e para o país. E eu sei, mesmo que o almirante não queira admitir, que você tem alguma participação no assassinato do presidente Reagan.

Com estas afirmações, Miller deveria estar surpreso. Mas a única mudança em sua expressão foi o sumiço de seu sorriso, pois ele sabia que Cross não estava mentindo. Ele não teria sido o chefe interrogador da agência se não soubesse.

– Então… você sabe. E agora, vai tentar me impedir também, como os outros.

– Eu não vou tentar Miller.

Um soco em alta velocidade foi lançado na direção de Cross, mas ele sabia disso. Miller tem golpes fatais e gosta de terminar lutas em um golpe só. Cross tinha estudado a ficha e os movimentos de Miller apenas para este conflito. Sua compleição física seria sua vantagem. A de Cross seria a surpresa.

Com um movimento rápido, Cross chutaria a mão de Miller, onde estava o agente principal, segurando-a com a outra mão. Miller puxaria uma pistola e, antes que pudesse disparar, seria desviada com a mão esquerda de Cross, atingindo o piloto, fazendo com que o helicóptero perdesse o controle.

Um soco direto de Cross atingiria o rosto de Miller, mas ele não sentiria nada. Uma joelhada no fígado de Cross foi o suficiente para rendê-lo sem escolha no chão. Satisfeito com a vitória, Miller se aproximaria lentamente a Cross, que estava de costas para uma queda livre de mil metros.

– Então, Cross, eu não preciso mais de você. Dê-me o reagente e eu tornarei sua morte mais rápida.

– Seu grande problema, Miller – disse Cross, respirando com dificuldade – é que você é muito arrogante.

Num movimento rápido, Cross se jogou do helicóptero. Miller não tinha notado, mas Cross pegaria um pára-quedas do helicóptero, por isso recebeu a joelhada. Saltando em território iraquiano, Cross se misturaria e esconderia até encontrar ajuda. Ao perceber que tinha perdido a chance de cumprir seus objetivos devido a um empecilho que deveria ter percebido desde cedo, Miller tinha apenas uma coisa a dizer.

– Cross!

View
A Queda
Paragons #4

28/03/2012, Hospital de Londres

O que aconteceu de verdade naquela noite? Brandon não sabia.

Fazia horas que ele estava lá. O peso das costas era tão grande que não conseguia ao menos se levantar para ir ao banheiro. Mas ela estava lá, desamparada, sozinha. Alguns dizem que pessoas nessa situação são capazes de compreender o mundo.

Brandon nunca acreditou nisso.


48 horas atrás, Planícies do Condado de Essex, Inglaterra

O cheiro de fogo e fumaça não atingia o Predador. Seu traje era selado hermeticamente, mas ele podia ver o resultado da batalha. A destruição se fosse numa cidade teria sido devastadora: o Necropolitano estava abrindo as portas do Inferno e o próprio diabo estava respondendo.

Brandon sabia fazer as contas, as chances estavam contra ele. Apesar de ferido, o Necropolitano tinha dado um golpe fatal contra Hércules, que para Brandon era o ser mais poderoso da face da Terra. Valquíria – Vanessa – tinha sido nocauteada por um Mal Antigo invocado e, apesar de sua preocupação, Brandon não podia tentar resgatá-la agora. Seu foco era no inimigo a frente.

Mesmo o garoto de roupas sujas com poderes fenomenais não era capaz de suportar tantos Males Antigos e o Necropolitano. Neste momento, para Brandon, o mundo parou.

– É – disse ele sorrindo por debaixo da armadura – está na hora de ver do que este novo traje é capaz.

Redirecionando toda a energia para seu canhão central, Brandon iniciou o disparo de sua vida. A princípio, o Necropolitano estava esquivando da mira, mas o Predador persistiu. Sua determinação focou a mira e disparou um tiro que feriu gravemente o Necropolitano, queimando seu corpo pútrido e cadavérico.

Acima de sua cabeça, o jovem tinha se provado mais determinado do que Predador tinha pensado. Ele sozinho destruiu dois Males Antigos. Apesar deles já estarem feridos de sua luta contra Valquíria e Hércules, ainda assim foi um feito impressionante.

O Portal do Inferno estava aberto e outros males estavam saindo dele. Predador, pensando rápido, analisou o espectro do corpo do Necropolitano e do Portal. Eram iguais, portanto, deveriam se repelir quando se aproximassem. Agindo rápido, ele pegou o corpo do antigo Imperador que já apresentava regeneração.

– Ei garoto! – gritou para o jovem Asura, que tinha acabo de despachar um Mal Antigo. – Preciso de ajuda aqui!

Asura, por um segundo, não entendeu, mas depois desceu rapidamente para ajudá-lo. – O que eu faço? – gritou em meio ao barulho gerado pelo portal e os monstros que o habitavam.

– Jogue ele o mais longe que puder lá dentro.

Num balanço, os dois arremessaram o corpo semidestruído de Malak no portal, fechando-o como previsto. O dia havia sido ganho e a Vanguarda salvou o mundo da possível destruição.

Mas algo estava errado… Brandon podia sentir isso na pele. Se aproximando de Hércules, ele foi capaz de recobrar a consciência de seu amigo.

– Hércules! – disse Predador. – Leve o Lucius daqui agora!

Hércules, vendo o Predador no local, mas com armadura diferente, logo ficou desconfiado. – Tire a máscara!

– Sem tempo! – gritou Predador, enquanto ativava seus propulsores em direção de Vanessa.

Sobrevoando as planícies de Essex, completamente destruídas pela luta, ele via o resultado: 22 corpos, dentre elas homens, mulheres e crianças, pessoas importantes ou não, estavam lá, deitados. Suas análises indicaram que toda a água e sangue dos corpos foram extraídos, o que os deixou com um aspecto horrendo. Olhando para o céu, toda a luta tinha sido transmitida ao vivo pela BBC, o que deixava a situação pior ainda.

As tropas do General Green, o qual Brandon conhecia apenas por reputação, continuavam a cercar o local e verificar se haviam sobreviventes. Apenas alguns acólitos estavam vivos, mas os reféns foram aniquilados. Mas esta não era a preocupação de Brandon na hora.

– Vanessa… onde você está?

Rastreando um fraco sinal vital, o Predador desceu até o ambiente, onde encontrou Valquíria. A visão não era bonita e o coração de Brandon quase pulou fora de seu peito: o corpo de Vanessa estava todo retorcido, quebrado e frágil. Ele não sabia nem por onde começar, seus estudos de primeiros socorros não lhe prepararam para isso.

Mas quando chegou perto, a máscara de Valquíria abriu, revelando o rosto de Vanessa com lágrimas de dor escorrendo pelas bochechas e os olhos tentando focar em algo, lutando contra a dor.

– P-predador? – ela falava com dificuldade, provavelmente com um pulmão perfurado. – Você deveria estar… nos Estados Unidos…

Mais do que rapidamente, Predador removeu a máscara, mostrando o rosto de Brandon para Vanessa. Ela demonstrou um sinal de surpresa, mas fraco, provavelmente pensando que era uma alucinação.

– Vanessa… eu estou aqui! – disse Brandon, tentando acalmá-la. – Alguém! – gritou no rádio. – Valquíria precisa de tratamento médico imediato!

Menos de um minuto depois, Green e uma equipe de paramédicos chegou ao local. Os paramédicos foram capazes de imobilizar Vanessa e remover sua armadura. Muitos ossos dela estavam quebrados e o aparelho da Valquíria tinha fundido com a base de sua coluna.

Green estava com um tom sério, aquele com o que você vai a um enterro, mas não chora. Brandon segurou sua comoção com a cena e prestou continência para seu oficial superior.

– Senhor! Capitão Montgomery se apresentando para o serviço!

Green reconheceu Brandon de longe. Ele tinha lido e decorado todos os arquivos de pessoal da Vanguarda. Mas ele não deixou demonstrar surpresa de seu retorno dos mortos.

– Capitão! – disse ele retornando a continência. – É uma honra tê-lo de volta!


24 horas atrás, Hospital de Londres

– Mas eles não podem!

Brandon estava mais do que irritado com a situação. Ele tinha retornado, mas ao invés de um confortável retorno, as coisas foram de mal a pior. Green tinha acabado de sair de uma Corte Marcial após as imagens da BBC serem publicadas ao mundo. Olivia Wallace tentou, mas sem sucesso, apaziguar a situação dos paragons e da Vanguarda. Mas a verdade era que todos queriam a pele dos paranormais naquele dia vermelho.

– Eles podem, e devem, me compreende soldado? – falou Green, com sua sinistra calma.

– Senhor, com todo respeito, você sabe o que isso significa? Quer dizer que você será, no mínimo, afastado do serviço. Muito provavelmente cassado.

Green concordou após ouvir a segunda opção. Neste momento Brandon sabia que não precisaria mais chamar Green de senhor novamente. Ele estava com aquele olhar longe, derrotado, como se não tivesse mais nada para viver.

– O pior ainda não veio. – disse Green. – A força total da OTAN cairá sobre a Vanguarda agora.
Para ser sincero, nos olhos da mídia e do público, nos somos mais um perigo do que uma vantagem.

Brandon socou a parede de frustração. O ambiente do Hospital de Londres não era dos mais animados, principalmente com um membro da Vanguarda no local. As pessoas passavam olhando feio para os dois, ali parados, esperando os resultados dos exames.

– E o que os médicos disseram? – falou Green, pegando um café e sentando ao lado de Brandon.

– Nada. – Brandon baixou a cabeça. – É muito cedo ainda para dar algum diagnóstico. Várias fraturas, vasos sanguíneos cortados, um pulmão perfurado e traumatismo craniano. – ele suspirou. – É um milagre que ela ainda esteja viva.

– Não milagre. – disse Green, agora em tom severo. – Treino. O Necropolitano foi, de longe, o inimigo mais poderoso que vocês enfrentaram. A Equipe Alfa não pode ajudar, portanto pediram ajuda a nós. E o que fizemos? Justamente o que eu tinha dito na minha primeira reunião: não agir feito caubóis loucos numa luta. Agora temos um cavaleiro de baixa-estima, um semideus desaparecido, uma patrocinadora à beira da morte, um retornado dos mortos… – ele parou e olhou para Brandon. – E ainda nem sabemos quem foi o garoto que nos ajudou!

– O.D.I.N. está fora do ar. – falou Brandon. – A Torre de Guarda foi atacada enquanto a Equipe Zero estava fora.

Os olhos de Green brilharam de raiva no momento. – Por isso que eu não queria confiar a segurança aqueles palhaços! – disse ele, agora alterado. – Um Caçador que não sabe jogar em equipe? Um robô de passado obscuro? Pelo amor de Deus, estamos perdidos!

Ele mergulhou o rosto nas mãos, pensando em um jeito de sair daquela situação, quando dois oficiais da OTAN se aproximaram deles mostrando uma intimação.

– É, general, você disse que o pior ainda estava por vir.


8 horas atrás, Tribunal Superior de Nova York

– General Green, você pode se levantar para testemunho.

O tribunal estava em corte. Richard Green tinha sido intimado a depor no caso “Povo vs. Vanguarda”. Aparentemente, o Tribunal Superior de Nova York não estava satisfeito com a cassação do título de Green.

– Protesto, meritíssimo, – disse o Promotor Geral Harold Roscoe, um homem alto, mas com uma compleição física estranha – mas o acusado não possui mais o título de General. O tribunal deveria chamá-lo de Sr. Green ou Richard Green, conforme a necessidade.

Uma loira ao lado de Green se levantou rapidamente e, de fato, respondeu em seguida. – Meu cliente, meritíssimo, ainda não foi condenado pela Justiça Militar, portanto ele deverá ser respeitado pela sua patente, segundo as leis americanas.

Foi uma ótima escolha ter colocado Jessica Collins como defensora de Green. Por anos trabalhando em Detroit como Promotora Geral ao lado de Nightstalker, ela tinha uma reputação de uma promotora incorruptível, extremamente carismática e competente. Quando levantou sua voz, até mesmo o Promotor Geral abaixou a cabeça em respeito a ela.

– Concedido. – disse a Juíza Henrietta Mercedes. – O cargo ainda não foi estripado do acusado.

Green, lentamente, se aproximou do assento do interrogado e fez o juramento perante todos. Então, com a permissão da juíza, o Promotor Roscoe se aproximou dele.

– General Green. – ele disse, em tom sarcástico. – Ah… Quantos anos o senhor têm?

Roscoe tinha a fama de deixar suas testemunhas nervosas. Ele era um advogado extremamente talentoso e por isso foi escolhido para o caso. Sua habilidade de uso das palavras era fabulosa, fazendo com que o interrogado traísse a si mesmo.

– Protesto. Sem causa razoável para tal pergunta.

Sorrindo, Roscoe retornou para o público atento. – Mas claro que tenho? Como vou determinar se o seu cliente é um paranormal ou não?

– Negado. – disse a Juíza. – Responda a pergunta, general.

– 61 anos no próximo mês. – disse Green.

– E você é líder de uma equipe de super-heróis, paragons, além de ser líder de campo com… 61 anos? Não é um pouco velho para o papel, general?

– Veja meus exames físicos, eles todos implicam que estou apto ao serviço.

– Sim. – disse Roscoe, arrumando os óculos. – Você é muito apto. Suas condições físicas indicam que tem um corpo de um jovem de 22 anos. General, quantas pessoas o senhor conhece com esta condição?

– Protesto. Sem causa provável. – Mais uma vez, Jessica se levantou.

– Negado. – a juíza estava implacável.

– Nenhuma pessoa.

Roscoe girou nos pés rapidamente e estalou os dedos. – Nenhuma? Bem, porque aqui eu tenho um relatório médico indicando que o Major John Miller, recentemente em coma, tinha as mesmas características. E que os dois participaram do mesmo programa da CIA, vejamos… o Projeto Ascensão?

Green estava sendo encurralado. Percebendo isso, Jessica pediu para checar as informações. Todas elas eram de selo da CIA comprovados, o que implicava em seu cliente um grave problema. A rapidez com que o caso foi montado, apesar do julgamento ter estado marcado há vários dias devido ao ataque à Broadway, era impressionante.

– O Major Miller e nos conhecemos.

– Pois estas mesmas fontes indicam que o Projeto Ascensão era para… “forçar o desenvolvimento paranormal de habilidades físicas”, como escrito no relatório.

Green sorriu. – Não existiam paranormais nos anos oitenta, isso é coisa do século 21.

Foi então que Roscoe deu sua grande cartada. – Então como me explica um cavaleiro medieval entre seus números, general? Está mais do que provado que existiam paranormais antes do Patriota! Isso é um fato aceito pela maioria dos profissionais da área.

Green percebeu que havia dado a Roscoe o jogo e Jessica estava ficando impaciente. Seu caso estava, aos poucos, sendo derrubado e Roscoe sabia justamente como fazê-lo.

– E mais uma coisa, general. – disse Roscoe. – Desde a fundação da Vanguarda, o senhor tem acompanhado de perto seu desenvolvimento. Após a morte e ressurreição do Coronel Cross, que não atendeu ao julgamento, o senhor o afastou do cargo após uma década sem ação. Diga-me, general, quantos supervilões a Vanguarda já prendeu?

– Essa é fácil, nós prendemos 431 pessoas desde o início de nossas operações, o que em termos gerais, indica que somos três vezes mais eficientes que o FBI devido aos recursos e pessoal que dispomos.

Os apoiadores da Vanguarda bateram palmas, o que levou quase um minuto para a juíza Mercedes apaziguar. Jessica estava confiante, mas Roscoe não tinha removido o tom debochado de seu rosto.
– Então, foram 431 paranormais que vocês prenderam?

Green se assustou com a pergunta. – Como?

– Foram todos os presos paranormais?

Green hesitou por um momento. – Não.

A multidão logo gelou. Roscoe tinha virado o jogo. – Então, quantos paranormais foram presos desde o começo das operações da Vanguarda há aproximadamente um ano atrás?

Green ficou parado lá por um tempo e olhou para Jessica, que apenas fez sinal que respondesse a pergunta. – Um.

A multidão ficou chocada. – Um! – disse Roscoe, em tom teatral levantando o dedo indicador como um rock star. – Apenas um! Isso é… promissor, meu caro! Diga-me, sabe quantos criminosos a polícia de Nova York prende por ano?

– A polícia de Nova York não lida com nossas situações.

Roscoe riu. – É claro que não! Mas a polícia de Nova York tem capacidade de enfrentar estes criminosos. Assim como vocês têm capacidade de enfrentar supercriminosos. Então, a resposta é: milhares de vezes a sua cota, general. Sabe o que isto os torna? Falidos.

– Protesto. Coerção.

– Mantido. Promotor, sem ameaças ao interrogado.

Roscoe estava com o sorriso vencedor nos lábios. – Retiro minha declaração. E o acusado é todo seu, advogada.


1 hora atrás, Hospital de Londres

– Isso é uma palhaçada! – disse Zekkis, em tom agressivo. – Eles não podem fechar a Vanguarda. Eles realmente não podem! É lá que a embaixada alienígena opera.

– O veredito já foi dado, Will. – disse Brandon, entristecido. – Infelizmente, não há nada o que possamos fazer. Sem o apoio da OTAN, tudo ruirá.

Zekkis, disfarçado do detetive Wallace, ainda estava irritado com a situação. – É isso então? Quer dizer que a Vanguarda depende apenas de um país? Eu pensava que ela era maior do que isso! Eu achada que Cross tinha garantido sua independência.

As peças finalmente encaixavam. Brandon compreendia tudo agora que foi atualizado do que ocorreram nos últimos quatro meses que tinha estado fora.

– Will, não adianta. Se os Estados Unidos removerem oficialmente o patrocínio a Vanguarda está acabada, mesmo com os discursos de sua esposa e sogro. E com a saída dos EUA, a pressão caíra em cima do Canadá, Reino Unido, França, ou seja, a OTAN está fora. Quais outros países nós temos lá fora que se importam para cobrir os gastos destes? Japão? Completamente em crise e controlado pela antiparanormal Haruko Saeki. Rússia? Eles têm seus próprios problemas e preferem ficar na deles. China? Os chineses não estão nem aí para nós e veem nossa queda como a chance deles de menos influência americana no mundo. A nossa única patrocinadora privada de verdade está deitada entre a vida e a morte, e o outro bilionário que conhecemos está deprimido em sua mansão em Gales. A verdade é que nós fomos enganados. Alguém, muito inteligente, está por trás disso, e acabou com a única chance de defesa da Terra.

Zekkis compreendeu. – Quando eles vierem, nós não poderemos ajudar vocês. – disse. – Acho que vou pedir para que Olivia venha comigo para Nodo antes que seja tarde demais.

– Este é o problema, Will. – disse Brandon, com tom sério agora. – Já é tarde demais. Cometemos um erro, não temos mais grandalhões para nos proteger. Nós queríamos independência? Queríamos nos livrar de milênios de controle? Conseguimos. Mas agora fomos lançados na rua apenas para descobrir do que papai e mamãe nos protegiam. Eu vi o poder de fogo deles, e tenho que deixar claro, é muito superior aos dos Nodos.

Zekkis estremeceu com esta declaração. – Então é melhor você ir atrás dos patrulheiros o quanto antes. E impedir que este espião na Terra se comunique com seu mestre.

Após alguns minutos, ele se despediu e partiu para Nova York se teleportando. Apenas alguns minutos depois que o médico chegou. Neste momento, qualquer força que Brandon após três dias acordado lhe falhou. Ele mergulhou as mãos no rosto em desespero.

– Eu sinto muito. – dizia o médico. – Não há mais nada que possamos fazer por ela.

Não era apenas uma patrocinadora que estava lá, deitada e inerte. Não era apenas uma heroína que o mundo precisava. Também não era apenas uma amiga que estava desaparecendo. Neste momento Brandon descobriu que ela era muito mais do que isso. E ele não deixou que lágrimas escorressem enquanto os médicos se afastavam.

Brandon não existia mais naquele momento. O Predador tinha assumido sua verdadeira face. Alguém iria pagar muito caro por isso. E a queda da Valquíria não seria em vão.

View
A Traição do Olimpo
As Aventuras de Hércules #1

Grécia, 1300 a.C.

- Você só pode estar de brincadeira!

Não passava do amanhecer, a carruagem de Apolo caminhando com Helios pelos céus azulados, quando Iolaus foi surpreendido por uma gangue de pelo menos trinta soldados espartanos. Ainda atordoado do cansaço do dia anterior – o fim de uma busca de três dias pelo Cálice de Afrodite – e quando menos percebeu, estava totalmente amarrado a um tronco, sendo levado para Esparta para ser torturado por seu antigo inimigo, o Rei Hipocoonte.

Levado como um javali pronto para ser assado, Iolaus foi posto de lado quando anoiteceu. Os guardas, famintos, comeram e beberam bastante, certos de sua vitória sobre um inimigo a tanto tempo odiado.

Para Iolaus, a festa estava apenas começando.

- Ô, meu camarada? – chamou Iolaus um dos guardas espartanos. – Você poderia passar um pouco de comida para mim também? – ele sorriu. – Sabe como é… eu estou numa ressaca danada de ontem, sabe como é?

- Silêncio, cão! – disse o rude e brutamontes espartano, chutando areia nos olhos de Iolaus, que começou a tossir.

Um dos espartanos se aproximou. Perto dos outros tinha um perfil esguio e mais baixo, mais refinado também. Este Iolaus reconhecida: Pelágio, o capitão da guarda espartana, tinha se dedicado a capturar o jovem aventureiro. E, em suas mãos, estava o Cálice de Afrodite, belamente adornado, sem nenhuma falha ou ranhura. Afinal, ela é a esposa do grande Hefesto.

- O Cálice de Afrodite! – ele pegou o cálice, girando em sua mão, observando os detalhes infimamente perfeitos, como todos os trabalhos de Hefesto. – Vejo que não foi uma tarefa fácil de se adquirir, meu caro Iolaus! – falou olhando para Iolaus de cima com um sorriso sádico nos lábios.

Pelágio havia se tornado membro da guarda de Hipocoonte de uma forma que apenas os espartanos promoviam bem: crueldade. O que Pelágio não possuía de músculos ele tinha de mente, tão afiada quanto a mais mortal espada. Mestre da intriga, subversão e espionagem, Pelágio também era um excelente esgrimista, aproveitando-se da velocidade ao invés da força para enfrentar seus oponentes.

Agachando-se ao lado de Iolaus, Pelágio sorria ainda com os olhos brilhando contra o Cálice. Então, ele se virou para Iolaus e, limpando o rosto sujo de poeira de seu caído inimigo com um lenço, apenas recitou:

- Iolaus, há quanto tempo. Você é apenas um instrumento nas mãos de meu rei Hipocoonte. Contra ele, nada sobreviverá. E você, meu caro, é um tolo. Trabalhando dia e noite, três dias seguidos, enfrentando perigos mortais e que nenhum homem seria capaz de sobreviver, apenas para cair como um peixe na minha rede. Entenda uma coisa, jovem: não há nada que você tenha que eu não possa roubar!

Iolaus estava percebendo que sua visita em Esparta não seria a mais tranquila de todas…


Dois dias depois, Esparta

- Meu bom Pelágio. – dizia o Rei Hipocoonte à Pelágio. – Eu e meus filhos estamos felizes com a sua missão cumprida.

- Eu estou é aborrecido! – disse Lycon, filho mais velho de Hipocoonte. – Você demorou cinco dias para capturá-lo! Meus irmãos mais jovens demorariam metade do tempo, velho tolo.

Pelágio estava claramente irritado, mas era incapaz de fazer algo a não ser uma reverência que concordasse com a afirmação do príncipe. Alcón e Enésimo estavam presentes, os dois melhores caçadores de Esparta, apenas sorrindo e festejando com a opinião de seu irmão.

- Não ligue para eles, Pelágio. – disse Iolaus, em tom debochado. – Pelo menos você não é um idiota preguiçoso!

O comentário de Iolaus tirou um pequeno riso de Pelágio, uma bofetada de Hipocoonte no mesmo, e arrancou a alegria dos irmãos.

- Quer dizer que o cão mostra seus dentes? – disse Lycon. – Vamos ver o quanto tempo ele continuará a latir quando encontrar o verdadeiro Pelágio nas câmaras de tortura.

Removido da presença do Rei e seus príncipes, Iolaus foi arrastado no mesmo tronco em que esteve preso durante três dias até uma sala escura de mármore e madeira. As paredes estavam totalmente sujas de restos mortais e defecações daqueles que não conseguiram manter sua dignidade. Iolaus não conseguia culpá-los, afinal, nem todos são heróis.

- Pois bem, meu querido Iolaus. – disse Pelágio, segurando firme o queixo de Iolaus com sua mão direita, enquanto puxava uma adaga de bronze com a esquerda, mirando para ver qual dos olhos removeria do herói. – Qual dos dois prefere? Eu sei que você é destro, então vamos ficar com o esquerdo, não?

Iolaus estava numa situação perigosa, por isso ele precisava pensar e rápido! Muitas vezes ele se viu nessa situação, mas nunca numa prisão espartana com oito guardas armados, um captor sádico com uma adaga em seu olho e a vontade de usá-la.

De súbito, Iolaus reuniu o restante de saliva que possuía e cuspiu bem no olho de Pelágio, fazendo-o cortar de leve o nariz dele. Como recompensa, Iolaus além do corte recebeu uma série de socos e pontapés que o deixaram sem fôlego.

- Você se acha espertalhão, Iolaus! – disse Pelágio, retirando o restante do cuspe do olho, se afastando para dar espaço a guardas espartanos loucos para bater em alguém a arrancar sangue de Iolaus. – Mas desta vez, você não escapa!

A situação parecia totalmente perdida, com Iolaus ferido, enfraquecido e acabado. A adaga parecia o fim do sofrimento, se ela fosse usada de forma correta.

Mas Pelágio estava errado.

A verdade era que, Iolaus estava esperando isso. Ele fingiu estar cansado da viagem de três dias atrás do Cálice de Afrodite. Ele fingiu beber muito e dormir com uma meretriz num bordel qualquer, chamando a atenção dos guardas. E também fingiu não saber se soltar de um nó de marinheiro como aquele. Malditos espartanos, sempre se achando superiores.

Eles nunca se aventuraram com Hércules para entender o que é realmente dor.

Quando um dos guardas se aproximou de Iolaus para esfaquear seu rosto, ele desviou do golpe, no momento preciso para que o ataque acertasse o tronco e a adaga ficasse presa entre a madeira e a corda. Com os braços e pernas libertos, Iolaus cabeceou o oponente, forçando-o a cair por cima de outros dois, dando tempo suficiente para que pegasse a adaga e arremessasse na túnica de Pelágio, prendendo-o contra a parede de madeira, evitando que ele fugisse do recinto.

- Somos nove contra um, Iolaus! – gritou Pelágio, desesperado em remover a adaga. – Oito dos melhores soldados espartanos! Você não tem a menor chance!

Iolaus apenas cuspiu o sangue acumulado na boca e limpou com o antebraço o rosto sujo. – É melhor chamar mais… aí sim será uma luta justa.

Em questão de segundos, oito dos melhores soldados espartanos estavam no chão, sem saber o que lhes acertaram. E em outros poucos segundos, Pelágio estava de cabeça para baixo na torre de guarda, com o sangue descendo a cabeça e olhando para uma queda de cinco metros direto com a testa no chão.

- Então. – disse Iolaus, segurando Pelágio com um braço só. – Vamos começar sobre por que vocês querem o Cálice de Afrodite.

Pelágio nunca sentiu tanto medo em sua vida. Ele estava prestes a urinar em si mesmo, mas estava segurando ao máximo, pois logo desceria a sua boca e provavelmente nariz, o sufocando. – Hipocoonte quer se tornar um deus, Iolaus!

- Como assim? – disse ele, balançando um pouco para ver se Pelágio estava mentindo ou não. – O que o Cálice tem tão de especial a não ser o design sofisticado?

Pelágio riu, mas com lágrimas de terror nos olhos. – Se o cálice for preenchido com vinho, ele dará ao que beber força e resistência descomunal, como um deus! – disse ele, agora soluçando. – M-mas o poder e temporário!

Iolaus puxou Pelágio e, com seu braço em volta do pescoço de seu prisioneiro, dirigiu-se a sala do trono. Lá, as feições da família logo foi mudada por um tom mais sério, enquanto múltiplos guardas entravam no ambiente.

- Então – disse Hipocoonte – era tudo uma farsa. Sabia que tinha sido pego muito facilmente, Iolaus, você é muito esperto para isso.

- Ainda bem que minha reputação está de pé. – disse sorrindo.

Iolaus apenas se posicionava, segurando forte o pescoço de Pelágio enquanto os guardas o cercavam.

- Sério? – dizia Iolaus sorrindo. – Você vai por doze guardas contra mim? Você está de brincadeira.

- Atacar agora!

Num giro, Pelágio foi arremessado contra quatro guardas, enquanto Iolaus girava e chutava dois deles na boca, desacordando-os. Os outros seis avançaram, mas sem efeito: Iolaus era mais ágil e rápido, desviando das espadas, pulando por cima dos ombros dos guardas e nocauteando-os dois a dois. Isso tudo acontecendo enquanto Hipocoonte buscava vinho e o Cálice de Afrodite, o enchendo. Quando esta pronto para beber, Iolaus puxou uma adaga de um espartano caído e arremessou contra o Cálice.

Hipocoonte viu a lâmina se aproximando dele e sentiu o medo da morte em seu coração. Mas tudo mudou quando seu filho Enésimo pulou na frente, morrendo instantaneamente com o ataque. Iolaus ficou paralisado com a cena: seu arremesso tinha sido perfeito, iria apenas derrubar o cálice. Porém o jovem tolo pensava que a adaga mataria seu pai e fez o sacrifício.

- Não! – dizia Hipocoonte bebendo o vinho e limpando sua boca. – Seu maldito! Pelos deuses, eu vou arrancar seus ossos!

As palavras de Hipocoonte soavam como trovões e ele estava claramente maior. Ele tinha pelo menos dois metros de altura e quando ele segurou a mesa para se aproximar ele viu a mármore rachar na pressão de seus dedos.

Iolaus só podia dizer uma coisa: – Mas que mer…

Interrompido por um soco fenomenal, Iolaus atravessou a parede de mármore atrás dele, sendo lançado contra a queda de cinco metros da torre de guarda. Por reflexo, ele segurou numa corda que sustentava a torre, girando e retornando a sala do trono, onde Lycon, Alcón e Hipocoonte estavam esperando ele.

- Iolaus… – Hipocoonte dizia, cerrando os punhos. – Você vai morrer por isso! E não só você: saiba que o poder do Cálice não é limitado a vinho! – ele falou, arremessando uma estátua longe como se fosse uma pena. – Quando misturado com água, ele mata aqueles que beberem. E quando eu acabar com você, partirei para o Lago Maratona, a principal fonte de água de Atenas, lançando-o lá. Logo todos eles morrerão com o tempo, assim me tornando Rei de Atenas e Esparta!

Ajoelhado, com a mão segurando as costelas quebradas do último golpe, Iolaus sorriu, riu e depois deu uma gargalhada que não foi mais alta devido a dificuldade de respirar. Irritado, mas surpreso, Hipocoonte começou a gargalhar também, como se sua voz fosse um trovão. Mas de súbito Iolaus parou de rir e olhou para Helios: meio-dia. Ele voltou a atenção para Hipocoonte, que agora achava Iolaus um louco.

- Você vai perder velho. – disse Iolaus com dificuldade.

- Eu o tenho ferido em minha casa. Você pode ser ágil, mas não tanto com as costelas quebradas. E eu sou invulnerável aos seus ataques. Como pode me ameaçar desse jeito?

Iolaus sorriu mais uma vez e se levantou. – Eu trouxe reforço.


O impacto foi dão grande que o chão rachou no meio e todos na sala caíram, com os ouvidos zunindo do barulho. Rocha sólida foi quebrada de um soco amortecido por um ser invulnerável, e este ainda assim voou pelo menos quinze metros até derrubar a torre de observação. Tudo foi tão rápido que os filhos de Hipocoonte piscaram e depois olharam ao redor. E lá estava a causa de estrondoso poder.

Hércules.

- Finalmente chegou! – disse Iolaus, levantando-se e ferido. – Estava ficando sem piadas para enrolar o cara.

Hércules, ajoelhado, se levantou lentamente e olhou de volta para seu velho parceiro. – Você podia começar a treinar em casa essas piadas, para quando elas faltarem.

- E quem disse que eu não treino? – falou Iolaus, rindo de si mesmo.

Hércules logo recuperou o foco quando viu que Hipocoonte se levantou dos destroços de sua torre de observação. Ele estava ileso, o que preocupou Hércules.

- Você consegue cuidar desses dois? – disse o semideus.

- Claro! – falou Iolaus em tom debochado. – Minhas costelas precisam aprender uma lição.

- Essa foi horrível… – disse Hércules, cabisbaixo.

- É, eu sei. Não conto piadas boas em Esparta, ela me dá calafrios.

Hércules pulou em direção a Hipocoonte, que devolveu o golpe lançando um gancho no queixo de Hércules, fazendo-o subir pelo menos oito metros. Quando caiu, Hércules quebrou parte do chão e lançou por cima de Hipocoonte, que apenas ria dos esforços do semideus.

- Hércules! Finalmente minha vingança será completa! Após ter me livrado de meu irmão Tíndaro, agora me livrarei de seu aliado, o filho de Zeus!

- Não se eu puder evitar!

O conflito épico ocorrendo na parte inferior do castelo chamava toda a atenção da guarda de Esparta, mas após a destruição da torre de guarda, demoraria um pouco para que eles pudessem atravessar e ajudar seu rei.

Enquanto isso no palácio, Alcón tentava vingar a morte de seu irmão, mas Iolaus se provava duro de matar. Com um chute rápido, Alcón caiu ao chão desorientado. Neste momento o príncipe pensou que morreria, mas a atenção de Iolaus foi mudada para Lycon, que tentava repetir a dose de seu pai, sem sucesso.

- Maldito! – toda vez que tentava encher o copo com vinho, ele era impedido por Iolaus. – Você vai morrer pelo que fez!

Alcón estava perto de dar um golpe fatal pelas costas de Iolaus quando o esquecido Pelágio matou o filho de Hipocoonte pelas costas.

- Isso foi por anos de humilhação, seu asqueroso! – disse Pelágio repetindo as facadas inúmeras vezes.

Lycon ficou pasmo com a situação: seus irmãos mortos e seu pai lutando pela vida. Este meio tempo foi o suficiente para que Iolaus puxasse o odre de vinho das mãos de Lycon e corresse em direção a mesa de comida. Lycon percebeu que ele pretendia lançar o odre longe, para impedi-lo, mas após socar um fraquejado Pelágio no rosto com toda sua ira, ele chutou as costas de Iolaus quando chegou a mesa e hesitou por um momento, dando tempo suficiente para que Lycon o derrubasse e pegasse o vinho.

Servindo-se do poder dos deuses, Lycon ficou enorme e perigoso, com uma voz trovejada igual a de seu pai. Ele olhava para Iolaus, causador da morte de seu irmão, e começava a golpeá-lo. Iolaus era rápido, mas seus ferimentos estavam reduzindo sua velocidade e Lycon sabia disso.

Num golpe de sorte, Iolaus foi capaz de lançar pó de detritos nos olhos de Lycon, dando tempo suficiente para que ele pegasse o Cálice. Lycon percebeu e limpou os olhos rapidamente, agarrando Iolaus. Usando os dois braços, Lycon começou a esmagar seu oponente, quebrando seus ossos aos poucos, lentamente de forma sádica e cruel.

- Não está rindo mais Iolaus? – disse Lycon, apertando mais ainda seu inimigo. – Onde está seu senso de humor?

Lycon apertou bastante, mas Iolaus estava sorrindo para ele. Estaria ele louco? Iolaus era algum masoquista? Por que diabos ele estaria sorrindo numa situação dessa.

Então aconteceu, Lycon começou a perder as forças. Iolaus caiu semi-vivo no chão, cuspindo sangue e olhando para seu oponente caído. Ele estava se debatendo, a boca ficando preta e os olhos podres. Com suas últimas forças, Lycon perguntou:

- Como? Como fez isso?

- Simples. Água, não lembra da história do papai?

Então tudo caiu perfeitamente: quando hesitou na mesa, ele não esta se preparando para arremessar, ele estava enchendo o odre de vinho com água. Com mais água que vinho, ele deu forças, mas por pouco tempo. Logo ele ficaria totalmente podre, como uma carcaça de animal morto. O último dos filhos de Hipocoon.


- Hércules! – gritou Iolaus. – Onde está você?

Hércules, bastante ferido, estava puxando pela perna um derrotado Rei Hipocoon. Aparentemente, a força divina não é tão demorada assim e quando os golpes dele começaram a fraquejar, Hércules lhe deu uma pancada para desacordá-lo.

- E os filhos dele, Iolaus?

Iolaus apenas balançou a cabeça negativamente.

Hércules deixou o derrotado rei e partiu com seu amigo e o Cálice. Logo o exército espartano estaria lá e ele não poderia vencer a todos.


Um dia depois

- Hipocoonte não ficará feliz com isso, Iolaus.

- Eu sei. Mas, como disse, foi tudo acidental. Ele terá que conviver com os erros dele também.

Hércules e Iolaus estavam se recuperando ao céu livre longe de Esparta. Aparentemente, quando tomado em pequenas doses de vinho, o Cálice tem poderes regenerativos, o que permitiu que Iolaus se recuperasse mais rapidamente.

- Você não tem curiosidade Iolaus? – disse Hércules, mostrando um pouco de vinho para seu amigo. – De como é ter os poderes que eu tenho?

Iolaus devolveu o vinho e o Cálice. – Nah! Eu vejo você todos os dias! Já sei muito bem como é ter esses poderes. E, além disso, eu não gostaria de ser você, se é que me entende!

Hércules parou pra pensar, mas logo os dois estavam rindo e contando piadas. Horas se passaram e eles finalmente começaram a falar sério.

- E quem será que disse isso para Hipocoonte? – disse Iolaus. – Quem será que lhe deu a informação sobre tudo isso?

Hércules começou a mexer numa poça de água e, ao passar o Cálice por cima desta poça, viu os olhos cruéis de sua vingativa madrasta. Trovões romperam os céus e a ira divina da mulher traída se revelou.

- Hera…!

View
Lábios Doces
Contos Menores

Um mini conto do universo solo do Caçador das Sombras

Era mais uma dessas noites que ele não tinha nada pra fazer; os fantasmas do passado insistiam em voltar para lhe incomodar. Verdadeiros pesadelos agonizantes absurdamente melancólicos.

Ele resolve sair pra dar uma volta. Sim, pelas ruas imundas da cozinha do inferno. Precisava limpar a mente; na verdade não conseguia aguentar muito tempo aquele lugar onde dormia, tanto pela sujeira que se apresentava, como por estar cansado de olhar as paredes.

Desceu as escadas em direção à portaria. Na rua um vento frio açoitou a sua face, tão forte que precisou desviar das folhas de jornal que voavam descontroladas na escuridão. Nestas as manchetes do “Serial killer” que andava assustando a cidade lhe chamou a atenção. Estranhamente ainda não conseguira capturar, mesmo que já tivesse em cenas do crime…

- Será o maldito paranormal?

Collins seguia caminhando pelas ruas escuras, sem nenhum rumo pra seguir. Ele passa por vários pubs, alguns bem lotados para a hora. Lugares que sabia; as pessoas tentavam se esquentar com algumas doses de bebida barata!

Ao passar em um dos bares (o de nome: “Noturnos”), lugar que já conhecia bem (costumava ter alguns conhecidos no local), pensou que talvez alguém pagasse algumas doses pra ele, no momento, só tinha alguns trocados no bolso da jaqueta de couro, esquecerá o dinheiro em casa.

O pub era bem esfumaçado, com um forte odor de cerveja. Na vitrola tocava " Miss you dos Rolling Stones ". As pessoas pareciam felizes dançando e se divertindo. Chris foi até o balcão e pediu uma dose dupla de Whisky além de uma cerveja… Ele toma o whisky de um só gole e continua tomando a cerveja em pequenos goles. Tudo começa a ficar estranho a sua volta, talvez sinal do álcool agindo no corpo.

Ele começa a fitar os rostos das pessoas até perceber que uma linda mulher morena/afro-americana, talvez uma das mais lindas que já avistou, estava o observando. Ela levanta o copo do que parecia Whisky em sinal de aprovação.

Collins vai até a mesa dela e os dois conversam um pouco. Ele percebe que ela não é daquelas bandas, um sotaque diferente talvez; ele a tira para dançar. Os corpos começam a ficar unidos pelo movimento. Ele a sente ofegante sobre o peito.

Chris olha a mulher nos olhos e os dois se beijam sem uma única palavra. Assim que a música acaba, ela sussurra no olvido do homem:

- Vamos embora, têm um lugar que eu to dormindo. Quero sentir teu corpo sobre o meu esta noite.

Então a mulher o leva para um hotel barato próximo. Chegando ao local, ela oferece um pouco de vinho que tinha sobrado da noite anterior. Sentando no sofá ela fala com uma voz sensual e melodiosa:

- Estou vestindo a minha nova lingerie sexy, um sutiã branco uma liga com meias de seda claras e uma calcinha branca de seda mais suave e macia do que todas que você já viu na vida.

Ela começou a dançar e tirar as roupas lentamente, desabotoou o sutiã, seios fartos a mostra, ela o olhava com desejo. Chris vai até seu encontro a beijando, o gosto da boca da mulher era muito doce, quando o homem estava ficando mais excitado, ele senti duas apunhaladas na barriga, quando olha para baixo, vê muito sangue, que se espalha rapidamente pelo recinto. Foi quando caiu a ficha, aquela era o Serial Killer que estavam comentando nos jornais.

Chris fica deitado no chão paralisado, então era aquele o seu fim. Naquele quarto de hotel! Tantas coisas para pensar no fim da vida e só passava uma coisa pela sua cabeça: Como ela conseguiu burlar meus sentidos? Antes de tudo tornarem-se trevas, Chris escutou palavras de uma terrível voz escura e sinistra, como de um verdadeiro demonio.

- Essa noite você vai ser meu marido.


O jovem acorda suado e ofegante em seu quarto, perplexo e muito assustado
Malditos pesadelos pensou.

Ao redor avistou novamente a reportagem do Serial Killer

- Então é você que eu procurava… Bem o Caçador tem certas contas a acertar com uma morena com cara de anjo e espirito de demônio, malditos Lábios Doces.
- Felizmente não foi desta vês que meus sentidos falharam!

View
Restaurado, Recarregado e Reconectado
A Caçada do Predador #1

- Nós tínhamos um acordo, Ford.

Para Brandon, estava tudo escuro. Mesmo com os olhos abertos, as cores aleatórias não tinham forma suficiente para ele determinar algo. Entretanto, as vozes escutadas eram em inglês.

- Tudo o que eu tinha era uma garantia de que sua equipe não interferia nos meus planos. Agora vocês estão jogando com os peixes grandes. Tudo o que você buscou manter, estabilidade, segurança, ordem, será perdido. O fim está próximo e você sabe do que estou falando.

Para Brandon, a forma de George Ford, ou Adam Forge como é seu codinome criminoso, estava finalmente montada, mas a da segunda pessoa, não estava clara. Mas sua voz soava bastante familiar e faltava pouco para que Brandon descobrisse quem era.

Um dos enfermeiros observou Brandon abrindo os olhos e forçando sua vista para os dois, informando Ford. Quase que imediato, ele interrompeu sua conversa e sedou mais uma vez Brandon. Olhando para baixo, ele viu o porque de se sentir tão mal: suas pernas, quadril e parte do abdômen tinham sumido. Brandon era meio-homem, alimentado por tubos e suportado por máquinas que simulavam os órgãos que lhe falhavam. Sem forças para exprimir palavras, ele sucumbiu a droga.


Com um pulso elétrico em seu cérebro, Brandon acordou mais uma vez, porém em uma sala diferente. Ao redor dele, seus braços demonstravam marcas de fuligem e sangue que não era seu. Marcas de um conflito que foi travado em cima de si.

Ao contrário de sua última lembrança, Brandon estava preso numa mesa, mas tudo estava diferente. As máquinas eram mais avançadas, infinitamente mais: ele nunca havia visto máquinas como aquelas. Entretanto, o ambiente tinha piorado consideravelmente; poeira, destroços e esgoto passavam na construção semi-destruída onde estava.

Uma figura baixa, curva e de silhueta pequena se aproximou de Brandon. Ele possuía um PAD na mão e um instrumento de corte na outra, o que não lhe deixava nem um pouco seguro. Ele tentava falar, mas o ar não saía de seus pulmões – ele não tinha nenhum, uma máquina simulava esse órgão.

- Não se preocupe, capitão. – disse a criatura, em inglês perfeito. – Vamos deixá-lo novinho em folha em pouquíssimo tempo.

Em questão de horas, Brandon viu algo milagroso acontecer. Usando tecnologia extremamente avançada, beirando magia, a pequena criatura começou aos poucos restaurar o corpo de Brandon. Ele sentiu seus pulmões, rins e intestinos serem colocados de volta mais uma vez. Tudo isso sem nenhuma dor, apesar da angústia de ver suas partes internas cobrirem seu efeito.

- O quê está havendo aqui? – disse Brandon, finalmente capaz de falar e andar, colocando um trapo velho, talvez uma roupa antiga de médico do local, e se cobrindo do frio que fazia no ambiente.

A criatura apenas ria do seu próprio sucesso. – Parabéns, capitão. – disse a criatura, que soltava um gargarejo similar a uma escarrada. – Você é o primeiro terráqueo que opero e não é morto. Sinta-se com sorte!

- Terráqueo?


Planeta Horis V, Expansão Ardente do Imperium, Ano 5714

Era muita informação para que Brandon assimilasse: recuperado da Terra, lançado numa expansão espacial há 7 mil anos-luz de casa e confinado a um planetinha lixão, Horis V. Sua sorte não tinha mudado.

- Então, você é um médico deste Imperium que tanto falou? – disse Brandon, coçando a cabeça de tanto pensar em tão pouco tempo.

- Eu já disse – falou K’taris, claramente irritado. – todos nós somos parte do Imperium, mesmo que você não queira!

Brandon andou de um lado para o outro, sentindo seus pés cada vez mais sujos dos restos de lixo do ambiente. Ele jura ter visto uma centopeia de cinco metros passando por dois cones a 13 metros, mas mesmo assim ficou calado, já que K’taris parecia natural com aquilo.

- Então vamos para a pergunta que não quer calar… – disse Brandon – Por que me trazer aqui neste fim de mundo? Sem ofensas.

- Não estou ofendido. – disse K’taris. – Este não é meu planeta natal, mas sim um dos mundos que uso como esconderijo para este tipo de operação. – Apontou para seu equipamento.

- Bem… Estou esperando.

- Certo, mas primeiro não me venha com essa de “não sou eu”, “eu recuso” ou “tenho algo melhor pra fazer”, ok?

Brandon sorriu. – Eu prometo fazer meu melhor.


15 minutos depois

Brandon estava sentado na cama, gargalhando profundamente da cara altamente séria de K’taris. O que ele vivenciou recentemente só podia comprovar uma coisa: sua sorte não tinha mudado. Mesmo.

- Quer dizer que eu estou apto para ser parte deste grupo que você chama de…

- Patrulha Estelar.

Brandon limpou uma lágrima. – Certo, entendo. – Após respirar profundamente e se recompor ele continuou. – Isso só pode ser brincadeira…

- Não é.

Brandon parou por um segundo e observou K’taris. O pequeno alienígena parecia muito sério sobre a situação. Então ele finalmente começou a tomar as coisas com mais seriedade.

- E o que eu devo fazer? Afinal, o Traje Predador não veio comigo… não é?

- Pois é aí, meu amigo terráqueo, que você se engana. – K’taris pulou em algo que parecia ser um barril de lixo e começou a fuçar lá, tirando todo tipo de coisa tecnológica, até achar uma CPU do Traje Predador. – Com apenas isso, podemos construir o Traje Predador desde o princípio. Tenho certeza que seus cientistas não foram capazes de desenvolver 20% do seu potencial completo.

- Como assim, nós?

- Preciso do seu cérebro para montar o Traje Predador, afinal só você tem a informação sensorial do traje.

Brandon coçou a cabeça um pouco. – Eu não sou muito de pensar, se é que me entende.

K’taris sorriu levemente, puxando vários materiais avançados e começando a se dirigir ao seu pequeno laboratório para pesquisas, depois se aproximando de Brandon. – Vocês, terráqueos. Quando eu digo que vou precisar de seu cérebro, eu digo literalmente.

Brandon teve que admitir que não foi a experiência mais legal ter parte de seu cérebro extraído para conceder informações a um alienígena que conheceu há vinte minutos. Mas com o passar das horas, ele veria que K’taris era, além de um médico, um gênio.


No outro dia

- K’taris! – chamou Brandon, melhorando de sua dor de cabeça. – Você terminou o projeto?

Quando caminhava pelo antigo edifício ele teve de parar para admirar: o Traje Predador, reconstruído em menos de um dia terrestre, por um cientista louco alienígena de alguma raça desconhecida. K’taris tinha feito algumas mudanças no traje, pois Brandon não via nenhuma arma externa, mas sim propulsores internos e canhões bilaterais dos pés aos ombros.

- Mas quê…? K’taris! Você é o cara!

- Na verdade, eu demorei mais do que imaginado. Estou ficando velho.

- Agora eu tenho que achar um jeito de voltar para casa… e você tem que me ajudar?

K’taris logo largou suas ferramentas, sentou-se ao lado da armadura e bebeu um líquido gosmento púrpura com cheiro de cereja. – Há um problema, capitão. Não há como sair de órbita. As forças imperiais impedem qualquer um de sair.

- E como você chegou?

- Como lixo.

Brandon parou um segundo, piscou e depois retornou a si. – E como você sai? Afinal, este não é um dos seus locais para operações secretas?

- Sim… mas isso chega a demorar alguns meses para que outra nave de lixo venha ao local. E você não tem esse tempo todo…

Brandon agarrou os braços de K’taris. – Como assim não tenho? O que vai acontecer?

- O Imperium está se expandindo novamente.


Essa foi a história que K’taris contou a Brandon, algo que ele desejou nunca ter descoberto. Era um conto antigo e muito não passava de mitologia para os moradores do Imperium, mas fez sentido para Brandon, já que ele tinha vivenciado a mudança.

No começo, havia apenas os Primeiros, os primeiros seres a desenvolverem pensamento lógico na galáxia. A evolução tanto tecnológica quanto física os transformou nos seres mais poderosos da galáxia, mas para sua tristeza só haviam eles. Incapazes de se sentirem completos, os Primeiros iniciaram a construir outras espécies para que pudessem chamar de filhos.

O Povo Antigo, como é conhecido no Imperium, era consistido por seis espécies. Entretanto, uma das espécies, a primeira a ser criada pelos Primeiros – o Fluxo – não resistiu e morreu, sendo enterrada pelo seus pais no centro da galáxia, onde sua força vital descansaria pela eternidade.

Tristes pela perda do Fluxo, os Primeiros trabalharam por milhares de anos para aprimorar o processo. E, com isso, eles desenvolveram as duas espécies gêmeas – os Zortons e as Trevas.

Os Zortons, uma espécie de poderosos seres da ordem e obdiência, buscavam alinhar todo o universo ao redor. Eles eram contraditos com seus irmãos gêmeos, as Trevas, que buscavam a evolução, o caos, a sobrevivência do mais forte. Incapazes de se conciliarem, os Zortons e as Trevas iniciaram uma Guerra, chamada de Guerra Eterna, onde a cada mil anos havia um conflito, normalmente na orla da galáxia para não afetar o equilíbrio galáctico, e quem vencesse determinaria os passos dos próximos mil anos.

Os Primeiros, mais uma vez, se sentiram tristes pela briga dos irmãos, mas juraram não interferir em suas disputas. Ao invés disso, eles criaram três outras raças, que deveriam representar os aspectos mais comuns do universo: ambição, invenção e diversão.

Os Q’ton eram os seres mais estranhos da galáxia. Eles viviam para brincar e se divertir, sendo os pais de todos os jogos. Seu poder era incomparável, mas sempre utilizado de forma responsável, nunca interferindo na Guerra Eterna de seus irmãos. Já os Arcantes, bravos e corajosos, buscavam tudo o que não tinham e mais: após um tempo eles acreditaram que a galáxia inteira era sua por direito. E existiam também os Antecessores, sábios e inteligentes, eles buscavam o aperfeiçoamento de toda a tecnologia, superando até mesmo os Primeiros.

Vendo que tinham cometido um erro, pois cada um de seus filhos tinha se tornado um tanto irresponsável, os Primeiros tentaram intervir, colocar ordem na casa. As Trevas, entretanto, viram isso como uma oportunidade e, enganando os Arcantes, colocaram pai contra filho numa batalha de vida ou morte. Os Arcantes eram mais poderosos e seu desejo ambicioso era insaciável, destruindo todos os Primeiros, exceto um, Cronos. As Trevas, desejando manter um de seus pais para continuar como adoradores dele, o sequestrou dos Arcantes e o escondeu num planeta na borda da galáxia, Terra.

Os Zortons, inteligentes, descobriram a trapaça das Trevas e, através de um acordo, mantiveram duplo domínio sobre a Terra. Cronos seria protegido por um membro dos Zorton e das Trevas. Entretanto, os Antecessores exigiam um culpado pela destruição dos Primeiros e os Arcantes foram totalmente exterminados.

Tristes com sua decisão, os Antecessores levaram os cadáveres dos Primeiros e dos Arcantes ao centro da galáxia, para se unirem ao Fluxo, seus primeiros filhos. Lá os Antecessores ficaram, para todo o sempre lamentando sua decisão.

Incapazes de compreender estes conflitos, os Q’tons se afastaram da galáxia, tornando-se mais uma lenda e folclore do que os ativos Zortons e Trevas. A vitória das Trevas gerou seis espécies originais, que não foram construídas por nenhuma outra espécie: os Nodos, os Kulin, os Tau, os Ishtar, os Uks, e os Humanos. Dentre eles, apenas os humanos foram deixados de fora da comunidade intergalática, devido a sua proximidade com o Primeiro Cronos.

Os Kulins, um povo avançado, formou o Primeiro Imperium, o maior império intergaláctico conhecido, somando no total 11 mil sistema estelares espalhados pelo espaço conhecido. Entretanto, um escravo chamado Kar, mais tarde Kar O Conquistador, liderou forças que tomaram o Imperium dos Kulin e agora planejava conquistar toda a galáxia.

Entretanto, para atrapalhar os planos de Kar, nos últimos mil anos, os Zortons foram vencedores da Guerra Eterna, e nenhuma conquista deveria se alastrar pela Via Láctea. Irritado, Kar tentou durante todo este tempo burlar as regras, até mesmo sendo capaz de assassinar um Zorton – feito que é cantado até hoje – mas com pouco sucesso.

Percebendo que suas leis estavam sendo desrespeitadas, os Zortons, apesar de poderosos, não eram onipresentes. Eles criaram uma força pacificadora, a Patrulha Estelar, para ser capaz de deter os ataques constantes do Imperium de Kar. Frustrado, Kar passou um milênio esperando o resultado da próxima Guerra Eterna.

E o desaparecimento das duas espécies, os Zortons e as Trevas, culminando com o fim da Guerra Eterna, era justamente o que Kar queria. E seus olhos tinham se voltado para a Terra, já que lá estava preso o Primeiro Cronos, um local sagrado para Kar.


- E o que isso tem haver comigo? – disse Brandon, vestindo seu novo traje Predador.

- O Traje Predador é o equipamento do Patrulheiro de sua região espacial. – disse K’taris. – Ele foi abatido por um espião de Kar da Terra e sua tecnologia foi aproveitada para construir outros trajes. Você conseguiu fundir sua mente com o traje perfeitamente, o tornando o próximo Patrulheiro Estelar, se a Patrulha não estivesse tão ocupada impedindo os avanços de Kar.

- E o espião de Kar ainda está na Terra?

- Sim, e ele pode ser qualquer um. Ele é um agente adormecido: quando convocador por Kar, ele tentará entregar toda informação possível de seu planeta para facilitar a invasão de Kar.

Olhando para o céu avermelhado de Horis V, o Predador, restaurado e recarregado, fecha sua armadura e, após um rápido diagnóstico, ele volta sua atenção para as naves orbitando o planeta. – Não se eu puder impedir. Pelo que vi, a tecnologia neste traje é auto-reparável, certo?

- Metal vivo. – concluiu K’taris.

- Você ainda não me disse porque está me ajudando. Você praticamente me ressuscitou. O que você ganha com isso, K’taris.

O pequeno alienígena fez um rosto de dor e Brandon se questionou se devia ter feito essa pergunta ou não. Mas, com um esforço, em meio a gemidos e soluços, K’taris finalmente falou.

- O que eu ganho? Ao contrário de você, humano, eu sou um Brizati, uma espécie derivada dos Kulin. Meu planeta foi conquistado há anos e, por um acesso de raiva do filho de Kar, ele foi destruído. Eu sou o último Brizati, o único que estava fora do planeta antes dele ser obliterado, junto com minha família inteira. Eu pergunto mais uma vez, o que eu quero? Eu quero vingança, capitão! Eu quero ver Kar e sua família queimar e o fim de sua dinastia maligna! É isso que eu quero!

Brandon compreendeu e, com um movimento rápido, ele saiu voando em direção as naves orbitando. Seus sensores indicavam que elas logo o detectariam, mas provavelmente ele seria rápido suficiente para sair do alvo delas.

Mas faltava algo.

- O que você quer? – dizia K’taris, ao ver Predador voltando para o local onde estava. – Já não fiz o suficiente por você?

Brandon coçou a cabeça por cima do capacete, meio embaraçado. – Tem uma coisinha só: pode me dizer o caminho para casa?

Sua sinceridade foi suficiente para arrancar um sorriso da boca de K’taris.


Alta órbita de Horis V, uma hora depois

- Comandante, o que aconteceu?

Um capitão Kulin perguntava para seu comandante o ocorrido. Várias naves interceptadoras foram destruídas, junto a um cruzador imperial, o que deveria ser impossível.

- Senhor, um Patrulheiro Estelar. – disse o imediato, confuso. – Suas armas foram suficientes para destruir tudo em seu caminho e seguir em frente.

- Para onde, comandante?

- Região 3-17.4 Exterior, senhor. Braço de Órion.

- Melhor informar o Imperium disso. O Príncipe Barok ficará interessado neste relatório…

View
Canção de Aço e Glória
Contos do Cavaleiro Negro #1

Castelo Chester, País de Gales – Junho de 1190

A manhã começou de forma violenta; nuvens de tempestade se aproximavam da costa, um terror que até mesmo os mais bravos se perguntavam porquê Deus estaria tão zangado conosco.

Mas Sir Griffin não se importava com isso. Nada mais importava após deixar de joelhos aquele que o transformou naquilo que é: o símbolo das que as trevas nunca venceriam, o poder da justiça divina caindo sobre aqueles que são o pecado encarnado.

E, finalmente, Sir Griffin poderia descansar após finalizar seu inimigo: Zaroc. Uma criatura imensa, de pelo menos quatro metros de altura, de joelhos implorando pela vida. Maior humilhação não poderia haver.

O castelo do Conde de Chester havia abrigado por demasiado tempo a aberração: Chifres escapavam de sua testa, fogo de suas narinas, e um hálito terrível de sua boca com língua serpenteada. A pele era avermelhada, como sangue, apesar de ser muito quente ao toque, como brasa da forja. Qualquer arma provavelmente derreteria ao simples toque de seu couro amaldiçoado, mas não a Vingadora Sagrada, a arma que o Senhor presenteou Sir Griffin para punir o mal encarnado.

A arma do Cavaleiro Executor.

- Q-quem é você? O-o que É VOCÊ? – dizia o demônio, abismado com sua derrota. Não foi grande feito para Sir Griffin, já acostumado a enfrentar inimigos como ele. Mas a criatura nunca havia pensado que alguém como ele existia.

- Eu sou seu pior pesadelo.

Com um movimento da mão, uma corrente de puro gelo surgiu nas mãos do Cavaleiro Executor, enrolando no pescoço do demônio. O frio machucava, pois ele era um demônio do Vale do Flegetonte, vivendo no rio escaldante por toda sua vida maldita. Com mais um movimento forte, o demônio cedeu e caiu ao chão prostrado.

- Quem mandou você ao Castelo Griffin, demônio? Foi seu mestre, Lúcifer, ou apenas um ato aleatório de maldade pura?

O demônio, apesar da dor insuportável, sorriu de forma maligna. – Nunca me fará falar, cavaleiro! Você não tem poder sobre mim!

Por um segundo, o demônio estremeceu. Ele não viu, mas sentiu, o Cavaleiro Executor sorrindo por debaixo de seu elmo. Agora ele sabia que insultá-lo não era o melhor remédio.

- Eu te comando, Zaroc!

Com um movimento forte, Zaroc bateu no chão com forças, seu corpo sendo movido por uma força invisível. Sua coluna estava torcendo contra o chão, enquanto sua cabeça, braços e pernas forçavam seu corpo para levantar, sem esperança. Ele estava dominado.

- Não fui eu! – ele falou, sua voz agora chiada e sobrenatural. – Não foi o Portador da Luz também!

- Então quem, Zaroc? Quem te enviou para o Castelo Griffin? Quem assassinou minha família?

- Malak.

Um silêncio seguiu e ao mesmo tempo os trovões do céu pararam.


Ducado de Aquitânia, França – Outubro de 1190

- Eu estou te dizendo, Sir Lucius, o Rei não pode vê-lo agora.

Lorde DuMont sempre foi um excelente anfitrião, mesmo com a fama de Sir Griffin. Mas desta vez o Cavaleiro Executor tinha passado dos limites ao tentar conversar com o Rei durante uma reunião de seu conselho de guerra, e DuMont estava por um fio a entregá-lo a guarda real.

- Então, Lorde DuMont – disse Griffin, cerrando os dentes e claramente irritado com a situação – diga a vossa majestade que a campanha em Gales terminou. Apenas mande essa mensagem e o Rei entenderá.

Dando meia volta, DuMont foi rapidamente substituído por quatro guardas, maiores do que Griffin, porém claramente com medo dele. Sua reputação lhe precedia: campanhas contra o Rei Henry II mostraram que Griffin não apenas era o melhor espadachim da Grã-Bretanha, mas sua família era influente suficiente para ser capaz acordos com a coroa inglesa sem a intervenção do próprio Rei Galês.

Em cerca de um minuto, DuMont retornaria com seu costumeiro rosto infeliz quando via Sir Griffin.

- Sua Majestade lhe espera na sala do trono, Sir Lucius. Aparentemente, a campanha de Gales realmente era mais importante que liberar Jerusalém dos infiéis.

Se retirando do local, Sir Griffin finalmente chegaria à sala do trono. Lá ele não encontraria apenas o Rei, mas também sua criada favorita, Beatrice, a qual Sir Griffin desconfiava que ele mantinha relações mais que profissionais.

- Majestade.

- Venha, Sir Lucius. Aprecie sua vitória contra um inimigo que nós dois estávamos esperando a queda.

Fazia apenas dois anos que o Rei Ricardo Coração de Leão havia sido coroado Rei da Inglaterra, Normandia e Senhor das Grã-Bretanha, mas faziam cinco anos desde que ele apoiava as ações do Cavaleiro Executor, pois anos atrás ele havia sido atacado por demônios também. Ciente que eles deveriam ser eliminados, Ricardo apoiava as ações de Sir Griffin, financiando-o o quanto pudesse.

- Desculpe-me, Majestade, mas eu não devo aceitar, não ainda. O causador de minha perda ainda não foi punido.

Ricardo, um guerreiro astuto e alerta, prontamente largou sua taça e se levantou. – Como? Pensei que tinha dito que a campanha em Gales havia terminado.

- E terminou, majestade. – concluiu Sir Griffin. – Mas a… – ele olhou de relance para Beatrice, mas o Rei comandou para que continuasse – …criatura revelou o verdadeiro mandante, o verdadeiro criminoso. Majestade, Marcus Malak, meu mentor, meu amigo mais adorado, o enviou para destruir minha vida!

Ricardo ficou de pé e piscou duas vezes. Ele entendeu a situação, o Rei era um homem muito inteligente. Mas ele estava processando a informação: por anos, Lorde Marcus Malak foi um dos seus conselheiros mais confiáveis. Aquela informação fez o Rei vacilar, algo que impressionou até Sir Griffin, pois o Rei era uma pessoa inabalável.

- Você está certo disso, Lucius? – disse Ricardo, segurando o rosto de seu cavaleiro com firmeza.

- Ponho minha honra e meu coração nesta resposta, meu Rei. Malak nos traiu a todos.

- Ele sabe disso?

- Sim, meu Rei. A… criatura também disse que ele estava observando meus passos. Provavelmente ele estará em Jerusalém, onde se encontrará com seus asseclas e fugirá para o oriente.

O rei daria voltas ao redor da sala, trocando olhares para Sir Griffin, que permanecia ajoelhado, e Lady Beatrice, que sentava ao lado do trono real. Finalmente ele parou e tomou uma decisão.

- Tu não podes mais lutar sozinho, Sir Lucius. Se teu inimigo, Malak, possui agora um exército de criaturas e de asseclas hereges, teu amado Rei não o deixará para enfrentar a morte sozinho. Vai-te e procura homens que sofreram o mesmo que ti. Aqueles com determinação e coragem, aqueles com habilidades na espada e na mente. Vai, monte um exército para tu, com minha bênção e com a de Deus. E pela vontade Dele, nós teremos nossa vingança!

- Eu te agradeço, amado Rei. Nunca esquecerei tal bondade e generosidade.

Ricardo se aproximou e levantou Sir Griffin, que tinha lágrimas em seus olhos: o orgulho que sentia pelo seu soberano era recompensado. Mesmo sendo um estrangeiro, ele era amado como um súdito leal.

- Não, meu amigo. Teu destino é maior do que as próprias estrelas. Agora vai, descansa para tua viagem. Quando retornares, conversaremos mais sobre teu destino.

E Sir Griffin se retirou. Após enxugar as lágrimas e focar sua mente na tarefa, ele percebeu Lady Beatrice. Ela tinha escutado toda a conversa e não estava surpresa. Ela sabia de tudo? Sir Griffin podia apenas imaginar. Mas a bela Beatrice apenas acompanhava o Cavaleiro Executor com seus belos olhos azuis, até ele desaparecer nas escadarias de seus aposentos.


Veneza, Itália – Janeiro de 1191

- Eu não sei não, Lucius. Acho que estes homens não são mais do que mercenários para mim.

- Eles são perfeitos. Traga-os até mim.

Fazia meses desde que Sir Griffin tinha conseguido permissão real para reunir homens para enfrentar o exército de Marcus Malak. Treinando-os na luta contra criaturas sobrenaturais, todos eles tinham uma história com demônios, fantasmas e outro tipo de pecado encarnado. Mas uma coisa eles tinham em comum: um desejo incontrolável de livrar o mundo destes seres.

A companhia, composta de vinte homens, era comparável a pelo menos duzentos. Habilidosos e experientes, os Executores eram formidáveis em batalha, destemidos contra o mal e sabiam como trabalhar em equipe.

Seu capitão de guarda, Dracus Drake, era o melhor deles. Forte e austero, Dracus tinha quase dois metros de altura e era de descendência alemã. Ele trabalhou toda sua vida para a Casa Griffin e foi o único sobrevivente do ataque de Zaroc ao Castelo. À partir daquele momento, Dracus jurou destruir aquelas criaturas, lado a lado com seu senhor.

- Os homens estão ficando agitados, meu senhor. – disse Dracus – Parece que eles têm uma sede por aço e glória que nunca vi na minha vida.

Sir Griffin sorriu. – Tu tens a mesma sede, Dracus! – falou, bravejante – Com a ajuda do Rei e com a bênção de Deus, acabaremos com Malak antes do fim do ano, isso eu juro!

Interrompido em sua celebração com seus homens por um mensageiro, Dracus levou a mensagem diretamente para Sir Griffin. – Lucius, é para tu.

A mensagem dizia que Sir Griffin deveria visitar um amigo na praça central em Veneza. Observando o ambiente, os atentos olhos do Cavaleiro Executor perceberam uma bela dama observando-os. Ela nada mais era do que Lady Beatrice, o que o espantava, pois era a última pessoa que esperava estar por detrás disso.

Arrumando uma desculpa para Dracus, Sir Griffin partiu sozinho para a praça central de Veneza, onde encontraria Lady Beatrice. Mais bela do que nunca, a jovem dama não deveria ter mais do que seus dezesseis anos. Não se sabe ao certo, mas Sir Griffin acredita que ela nunca casou porque era a amante do Rei.

- Lady Beatrice, me honra vê-la aqui. – disse Sir Griffin, incapaz de conter um sorriso ao vê-la. – O que a trás até Veneza, além de sua bela arquitetura?

- Sir, eu devo avisá-lo que o Rei está passando pela Itália e deseja uma audiência. Ele chegará amanhã ao Castelo do Santo Imperador Romano, logo após fazer uma visita ao Vaticano para receber as devidas bênçãos do Papa para sua jornada em liberação de Jerusalém dos hereges, além de sua busca para derrotar Saladino.

- Alegra-me ver que o Rei está disposto a liberar a Terra Santa. Mas, se era um aviso, porque enviar sua criada favorita?

- O Rei acredita que certos detalhes devem ser mantidos apenas entre poucos… eu sou a criada favorita de sua majestade, não sou?

Jovem, inteligente e audaz. Características que Sir Griffin apreciavam em uma donzela. Uma pena que ela já estava com o Rei. Mas isto não impedia Sir Griffin de apreciar sua presença.

- Pois então, bela dama, gostaria de um passeio pela cidade?

Levantando uma sobrancelha de surpresa, afinal a reputação de Sir Griffin descrevia tudo menos um comportamento gentil, Lady Beatrice, gaguejando, finalmente conseguiu falar: – Sim, por que não?

O dia passou rápido e ambos se despediram. Antes de dormir, Sir Griffin explicou para Dracus os procedimentos de treinamento e que partiriam junto ao Rei para a Terra Santa, juntando-se a sua cruzada. Em seu quarto, Sir Griffin finalmente dormiu após um dia feliz. A presença de Lady Beatrice o tinha trazido alegria há muito tempo desconhecida. Mas mesmo feliz, Sir Griffin sabia quando um movimento em seu quarto acontecia. Ele tinha aprendido a ter sono leve e estar sempre pronto para o combate. Invocando a Vingadora Sagrada, por pouco Sir Griffin não cometeu o pior erro de sua vida.

Iluminada pela espada mística estava o rosto da bela donzela de cabelos claros e olhos azuis como o oceano. Vestindo apenas trajes de dormir, que modelavam seu jovem e bonito corpo, Lady Beatrice não tinha razão para aparecer naquele local, àquela hora. Mas Sir Griffin estava farto de tantas perguntas. Ele apenas aproveitou o momento, enquanto seus corpos se entrelaçavam nos lençóis da residência. Sir Griffin descobrira, naquele momento, que Lady Beatrice era pura, o que lhe trouxe ainda maior felicidade. As dúvidas, as perguntas, ficariam para outro dia…


Vaticano, Itália – Janeiro de 1191

- Vossa Santidade requisita uma audiência, Sir Lucius.

O cardeal Félix era um homem de meia idade, mas forte para sua posição. Um amante de esportes, Félix passava seu tempo entre missas e peregrinações praticando luta greco-romana e tênis.

- Sua Graça, é uma honra estar em sua presença. Uma honra maior ainda ser convocado pelo próprio representante de Deus na Terra.

- Não se alegre muito, Sir, o Papa está acompanhado de seu Rei. E eles parecem bem sérios para mim.

Sir Griffin nunca havia estado lado a lado com o Papa, mas sabia que este encontro mudaria completamente sua vida. De alguma forma, o “destino” explicado pelo Rei faria sentido agora, nesta reunião.

- Entre, Sir Lucius Griffin, abençoado filho de Deus.

- Vossa Santidade, Vossa Majestade. – disse Sir Griffin entrando e se ajoelhando perante os dois.

- O Papa Clemente III e eu estávamos discutindo o futuro da Inglaterra e o seu Lucius.

Sir Griffin parou um momento de respirar. Tal afirmação o deixava tonto e apesar de não temer nada, sentiu uma angústia pressionando seu peito. – Eu… eu não entendo, majestade. Meu destino ligado ao futuro da Inglaterra? Mas como?

- Sir Lucius – disse Clemente, tossindo um pouco, sua saúde não era uma das melhores. – sabemos que tu vens de uma proeminente família de Gales, a mais influente e poderosa daquele país. E sabemos também que Ricardo não tem herdeiros, pelo menos não oficiais.

- Sim, isso é verdade. – disse Ricardo. – Minha esposa, Berengaria, não produziu herdeiros. Eu posso ter indicado meu filho ilegítimo, Filipe de Cognac, mas ele é fraco e não sabe o mínimo sobre governo.

Sir Griffin engoliu seco. – Ainda não vejo como contornar a situação.

- Digamos – disse Clemente com dificuldade – que houvesse um segundo descendente, uma princesa. – ele fez uma pausa, respirou fundo e continuou. – Estaria disposto a fazer o que fosse necessário para protegê-la, cavaleiro?

- Sim. – Sir Griffin respondeu sem hesitar. – Daria minha vida por minha soberana.

- Esposa. – disse Ricardo.

Sir Griffin soluçou. – Como? – ele esqueceu até das maneiras perante o Papa Clemente e o Rei Ricardo. Mas não era por menos. Realmente seu destino estava sendo traçado naquele momento.

- Como se sentiria sendo o Rei da Inglaterra, Sir Lucius Griffin?

O Cavaleiro Executor estava abismado. O mundo virou de ponta cabeça num piscar de olhos. Agora tudo fazia sentido: Ricardo o nomear líder de um exército, Lady Beatrice o acompanhar de perto para evitar acessos de ciúmes de sua esposa. Beatrice… era filha de Ricardo Coração de Leão, o mais poderoso, inteligente e influente monarca de todo o mundo. E quem ele escolheu para ser marido de sua filha?

Um sorriso leve surgiu nos lábios do Cavaleiro Executor. Há um Deus, ele pensou e Ele está me recompensando.

View

I'm sorry, but we no longer support this web browser. Please upgrade your browser or install Chrome or Firefox to enjoy the full functionality of this site.